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    Se Submetendo a Vontade de Deus - John Flavel - (1628 - 1691)


    1. Como pode o cristão descobrir a vontade de Deus em circunstâncias difíceis e confusas?
    Devemos em primeiro lugar considerar o que se quer dizer com "vontade de Deus". Ela tem um sentido duplo. Há a vontade secreta de Deus e há a Sua vontade revelada. "As coisas encobertas são para o Senhor nosso Deus, porém, as reveladas são para nós" (Deuteronômio 29:29). Nós podemos nos ocupar apenas com a vontade de Deus revelada. Esta é manifestada a nós, ora em Sua Palavra, ora em Suas obras.
    (i) Há grande variedade nas coisas reveladas. As coisas real­mente importantes da fé cristã estão claramente mostradas na Bíblia, mas as coisas menos importantes são, às vezes, mais difíceis de serem entendidas.
    (ii) Há grande diferença nas pessoas a quem Deus revela Sua vontade. Algumas são como homens fortes, e outras como bebês (I Coríntios 3:1). Algumas são capazes de entender o que devem fazer, e outras não compreendem tão facilmente.
    (iii) Os modos pelos quais Deus revela Sua vontade aos ho­mens também são muito diferentes. No tempo do Velho Testamento Deus mostrou aos homens o que fazer de maneira especialmente pessoal, como no caso de Samuel quando escolheu Saul para ser rei (I Samuel 9:15-17), e quando Davi perguntou ao Senhor se deveria lutar contra os Filisteus (I Samuel 23:2,4). Mas agora temos toda a Bíblia para nosso guia, e não devemos esperar receber revelações especiais. Devemos verificar as Escrituras, e onde não houver uma regra particular para nos orientar, devemos aplicar as regras gerais da Bíblia ao nosso problema particular.
    Entretanto, é possível que ainda tenhamos dúvidas sobre o que fazer. Nesse caso, não devemos olhar apenas para as provi­dências a fim de descobrir a vontade de Deus. O modo mais seguro é considerar as providências à luz dos mandamentos ou promessas da Bíblia. Quando tiverem orado pedindo direção, e perceberem que a providência concorda com sua consciência e com a orien­tação mais clara que encontram na Bíblia, podem aceitar isso como encorajamento para continuarem no caminho indicado. Mas se a providência parece favorecer qualquer coisa que estaria indo contra a orientação das Escrituras, não devem seguir esse caminho. Por outro lado, se a providência sozinha fosse tomada como a regra para nos guiar, então um homem ímpio que pratica o pecado de maneira bem sucedida, poderia alegar ser guiado por Deus. Os seguintes conselhos ajudarão vocês a descobrirem a vontade de Deus:
    a)      Tenham um temor verdadeiro a Deus em seus corações, e temam deveras em ofendê-lo. "O segredo do Senhor é para os que o temem; e ele lhes fará saber o seu concerto" (Salmo 25:14).
    b)    Estudem mais a Palavra e preocupem-se menos com os afazeres do mundo. A Palavra é luz para os seus pés (Salmo 119:105). Ela lhes mostrará o que fazer e quais os perigos a evitar.
    c)      Ponham em prática o que vocês já sabem. "Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo" (João 7:17). "bom entendimento têm todos os que lhe obedecem" (Salmo 111:10).
    d)    Orem pedindo iluminação; peçam ao Senhor que os guie e não os deixe caírem no mal (veja Esdras 8:21).
    e)  e) Então sigam a providência até onde essa concorde com a Bíblia, e não ultrapassem isso. Em tempo de provação devemos nós humilhar sob a poderosa mão de Deus. Por outro lado, é hora de regozijar em Deus quando Ele envia bênçãos para nos trazer conforto. "No dia da prosperidade goza do bem" (Eclesiastes 7:14). Devemos ser sábios para aprender o que Deus está nos ensinando em ocasiões diferentes à medida que a providência salienta tais ensinos.
    f)   2. Como o cristão pode aprender a esperar em Deus enquanto à providência demora em responder suas orações?
    g)  São dois os modos de ver essas demoras. De um lado, tempos e estações estão nas mãos do Senhor nosso Deus (Atos 1:7), porém do nosso próprio ponto de vista, esperamos que nossas orações sejam respondidas bem mais cedo. Ora, nada pode ser mais certo ou exato que a hora escolhida por Deus para responder orações. Se fôssemos comparar Êxodo 12:41 com Atos 7:17 veríamos a razão pela qual a saída de Israel do Egito não poderia demorar nem mais um dia. Foi porque o tempo da promessa havia se cum­prido. Nós ficamos desapontados com a demora da providência e começamos a duvidar da fidelidade de Deus. Mas os Seus pensa­mentos não são os nossos pensamentos (Isaías 55:8). "O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia" (II Pedro 3:9). O Senhor não calcula Seu tempo de ação pela nossa aritmética. Deus determina a hora certa, e embora Sua res­posta demore mais do que esperamos, ela não será nem um mo­mento mais tarde que Sua determinação.
    Durante essas demoras o povo de Deus pode se tornar muito desanimado. Pelo profeta Isaías Deus havia prometido que teria misericórdia de Seu povo em cativeiro, mas Seu povo esperou ano após ano e nada aconteceu. "Mas Sião diz: já me desamparou o Senhor, e o Senhor se esqueceu de mim" (Isaías 49:14). Com Davi aconteceu o mesmo. Deus tinha feito promessas para ele que foram chamadas "As beneficências firmes de Davi" (Isaías 55:3) e ainda assim ele pensou que Deus tinha Se esquecido dele. Ele disse: "Até quando te esquecerás de mim, Senhor? Para sempre?" (Salmo 13:1). Há três razões principais porque nós nos desanimamos desse modo:
    (i) Damos lugar à incredualidade. Nós não confiamos inteira­mente na infalível palavra de um Deus imutável e fiel. Esta razão para frouxidão de coração está no Salmo 27:13: "Pereceria sem dúvida, se não cresse." Em outras palavras, um coração frouxo é uma evidência de incredulidade.
    (ii) Vemos as coisas conforme nos parecem. Foi dito acerca de Abraão que "contra a esperança", isto é, contra a probabili­dade natural, ele "creu contra a esperança... dando glória a Deus" (Romanos 4:18,20). Nossos espíritos se animam ao esquecermos daquilo que vemos com os olhos físicos e ao medirmos tudo por outra norma, isto é, pelo poder e fidelidade de Deus (II Coríntios 4:16,18).
    (iii) Satanás usa essas ocasiões para sugerir pensamentos re­beldes contra Deus. Quando nossos ânimos estão deprimidos estamos mais propensos para dar ouvidos a Satanás. Ele sempre procura nos enfraquecer e fazer com que deixemos de esperar em Deus.
    À luz do que temos dito, é necessário que estejamos atentos e que entreguemos tudo nas mãos de Deus, com tranqüilidade, esperando ela Sua salvação. Para ajudar-nos nisso, apresento os seguintes pensamentos:
    a) Vocês não têm razão real para pensarem com rudeza sobre Deus, porque é possível que Ele não tenha prometido as coisas que esperam dEle. Talvez tenham prometido certas coisas a si mesmos, tais como prosperidade e a duração dos bens que agora desfrutam. Mas onde Deus prometeu isso? A promessa de que Deus "não negará bem algum" é limitada àqueles que "andam na reti­dão" (Salmo 84:11). Sondem seus próprios corações e vejam se não têm se desviado de Deus, de modo que Ele seria justo se tirasse aquelas coisas que lhes agradam. De qualquer modo, todas as promessas de bens nesta vida são limitadas pela sabedoria e vontade de Deus. Quem lhes disse que podiam esperar descanso, calma e gozo neste mundo? Deus já nos disse que devemos esperar problemas no mundo (João 16:33), e que "por muitas tributações" importa que entremos nò reino de Deus (Atos 14:22). Tudo o que Deus promete é estar conosco nas provações, a fim de suprir nossas reais necessidades e fazer com que tudo coopere para nosso bem (Salmo 91:15; Isaías 41:17; Romanos 8:28).
    b)  Se, após orarem a Deus pedindo bênçãos espirituais, tiverem esperado muito tempo sem receber nada, eu gostaria de lhes per­guntar que tipo de bênçãos pediram. As bênçãos espirituais são de dois tipos: aquelas que são necessárias à continuidade da vida espiritual, e aquelas que aumentam nossa alegria e consolo. As bênçãos do primeiro tipo são absolutamente necessárias, portanto são promessas certas e infalíveis. "E farei com eles um concerto eterno, que não se desviará deles, para lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim" (Jeremias 32:40). As bênçãos do segundo tipo são dadas conforme Deus vê que são boas para nós, e muitos dentre o Seu povo vivem muito tempo sem elas.
    c)    Vocês devem se perguntar qual o propósito em querer essas bênçãos. Pode ser que não recebem aquilo que pedem porque não querem as bênçãos pelo motivo correto (Tiago 4:3). Às vezes pedimos para sermos livres de problemas simplesmente porque eles estragam o nosso prazer neste mundo. De fato, os problemas são nos enviados a fim de vivermos uma vida de maior obediêcia.
    d)Porventura estão realmente preparados para que a vontade de Deus seja feita? O que lhes satisfaz é o desfrutar de seus dese­jos, mas Deus Se alegra quando desejam apenas fazer a Sua von­tade. Não podem usufruir as bênçãos enquanto não desejarem fazer a vontade de Deus de todo o seu coração. Davi teve que esperar muito tempo para receber o que lhe havia sido prometido, e nesse ínterim sua alma se tornou como uma "criança desmamada" (Salmo 131:2). Se Davi e muitos outros tiveram que esperar muito tempo as bênçãos de Deus» por que vocês não devem esperar também?
    e)    Acaso perderão alguma coisa se esperarem pacientemente em Deus? Certamente que não. É muito melhor saber que a graça de Deus está operando em suas vidas do que desfrutar de conforto. O Senhor está lhes dando uma lição de fé e paciência, e os tor­nando mais desejosos de fazer a Sua vontade. Quando as bênçãos desejadas forem recebidas, trarão muito maior prazer devido terem orado e exercido a sua fé.
    f)  Se não vale a pena esperar pelas bênçãos que desejam de Deus, então é tolice preocuparem-se por não tê-las. Tudo que Deus espera de vocês é que aguardem por Suas beneficências, como sendo favores espontâneos. Pensem nas muitas promessas feitas para aqueles que esperam no Senhor. "Bem-aventurados todos os que nele esperam" (Isaías 30:18); e "Os que esperam no Senhor renovarão suas forças" (Isaías 40:31).
    g)   Lembrem-se de quanto tempo Deus esperou até que vocês se voltassem para Ele e obedecessem Sua palavra. Não seria certo, então, que Deus lhes faça esperar Suas bênçãos? Nossa increduli­dade O fez clamar: "... até quando permanecerão no meio de ti os teus maus pensamentos?" (Jeremias 4:14).
    h) O fato de terem-se cansado de esperar é um grande mal. Provavelmente teriam recebido* mais cedo as bênçãos desejadas, caso seu ânimo tivesse sido mais sossegado e pronto a se submeter à vontade de Deus.