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    A obediência simples - Dietrich Bonhoeffer (1906 - 1945)


    -Bonhoeffer foi martirizado por sua fé aos 39 anos em 1945-
    Quando Jesus exigiu pobreza voluntária ao jovem rico, este percebeu que estava diante da alternativa: obediência ou desobediência. Quando Levi foi chamado da coletoria, e Pedro de suas redes, não havia dúvi­da de que o apelo de Jesus era sério. Eles deveriam abandonar tudo para o seguir. Quando Pedro foi chamado a pisar a superfície agitada das águas do lago, teve que se levantar e ousar aquele passo. Em tudo isso, exigia-se uma única coisa: confiar na Palavra de Jesus Cristo e considerá-la terreno mais sólido que todas as certezas do mundo. As forças que pretendiam interpor-se entre a palavra de Jesus e a obediência eram tão fortes então como o são hoje. Opunham-se a razão, a consciência, a responsabilidade, a piedade, e, até mesmo, a lei e o princípio escrituristico intervinham para impedir este extremismo, esta onda entusiástica sem lei. Mas o chamado de Jesus venceu todas as barreiras e impôs obediência.
    Se, hoje, Jesus Cristo falasse desta forma a um de nós através das Sagradas Escrituras, provavelmente argumentaríamos da seguinte for­ma: é certo que Jesus nos ordena algo bem definido; quando, porém, Jesus ordena, devo considerar que ele jamais exige obediência legalista, mas procura em mim uma única coisa: que eu creia. Minha fé, porém, não depende de pobreza ou riqueza, ou de algo semelhante; antes, na fé posso ser tanto rico como pobre. Que eu não possua bens não é essenci­al. O importante é que os possua como se não os possuísse e que esteja intimamente livre deles, e não prenda meu coração a eles. Por exemplo: Jesus diz: "Vende o que tens!", mas o que ele quer dizer, na realidade, é o seguinte: Na verdade, não importa que cumpras esta ordem ao pé da letra; podes, tranqüilamente, conservar teus bens, apenas deves tê-los como se não os tivesses. Não prendas o coração ao que possuis. A obediência à palavra de Jesus consistiria, portanto, exatamente na rejeição da obediência simples, por esta ser legalista, para então sermos obedien­tes "na fé". Neste ponto, distinguimo-nos do jovem rico. Este, em sua tristeza, não pode tranqüilizar-se dizendo para si mesmo: apesar da or­dem de Jesus, continuarei com minhas riquezas; apenas passarei a ser intimamente livre delas, consolar-me-ei, em toda a minha insuficiência, no perdão dos pecados e, pela fé, terei comunhão com Jesus. Ao contrá­rio disso, o rapaz retirou-se triste e, junto com a obediência, perdeu tam­bém a fé. O rapaz foi absolutamente sincero nesta atitude. Separou-se de Jesus, e sem dúvida esta sinceridade encerra maior promessa do que uma comunhão aparente com Jesus, baseada na desobediência. É evi­dente que, na opinião de Jesus, o jovem nunca conseguiria libertar-se intimamente de suas riquezas. Decerto aquele jovem sério e esforçado já o tentara mil vezes. Que seus esforços malograram, mostra o fato de, no momento decisivo, não ter conseguido obedecer à palavra de Jesus. Neste ponto, pois, o jovem foi sincero.
    Nós, porém, em nossa argumentação, distinguimo-nos fundamentalmente do ouvinte bíblico da palavra de Jesus. Se Jesus disser a ele: "Deixa tudo e segue-me. Abandona tua profissão e a família, teu povo e a casa de teu pai!", o ouvinte bíblico sabe que há somente a resposta da obediência simples, porque tal obediência tem a promessa da comunhão com Jesus. Nós, porém, diríamos: o chamado de Jesus tem que ser levado incondicionalmente a sério, sem dúvida. Mas a verdadeira obediência consiste em ficar em minha profissão, em minha família, e servir a Jesus aí mesmo, porém, em verdadeira liberdade interior. Por exemplo, Jesus diria: "Para fora!" Nós, porém, entendemos este chamado como um convite a ficarmos lá dentro, só que como se, interiormente, tivésse­mos saído. Ou então, Jesus diria: "Não se preocupem!" Nós, porém, entenderíamos assim: mas é claro que temos de nos preocupar e traba­lhar para o sustento da família e o próprio sustento. Qualquer outro pro­cedimento seria irresponsável. O que se requer é que, no íntimo, esteja­mos livres de tais preocupações. Ou ainda, Jesus diria: "A qualquer que te ferir a face direita, volta-lhe também a outra." Nós, porém, entenderíamos assim: é na luta e na réplica que se engrandece o ser humano no amor pelo irmão. Finalmente, Jesus diria: "Busquem, em primeiro lugar, o reino e sua justiça". Nós, porém, entenderíamos assim: é claro que, bem antes disso, temos que nos preocupar com mil outras coisas; de outro modo, como poderíamos subsistir? O que se pretenderia exprimir é que o ser humano deve ter a disposição íntima de empenhar tudo pelo reino de Deus. Em tudo isso se constata uma só coisa: a abolição consciente da obediência simples, literal.
    Como é possível tal perversão? Que sucedeu para que a palavra de Jesus tenha que servir para semelhante brincadeira, seja entregue à zom
    baria do mundo? Noutros setores, ao se dar ordens, as circunstâncias são claras. O pai diz ao filho: "Vai para a cama!", e o filho bem sabe o que papai quer dizer. Uma criança com treinamento pseudoteológico, po­rém, argumentaria assim: papai disse: "Vai para a cama". Está querendo dizer que estou cansado; porém, ele não gosta que eu esteja cansado, quer que eu esteja livre do cansaço. Bem, posso livrar-me do cansaço brincando. De fato, meu pai disse: "Vai para a cama!" Mas o que ele quer dizer na verdade é: "Vai brincar!" Se a criança procedesse assim com seu pai, ou o cidadão com as autoridades, ouviriam uma linguagem muito clara, a linguagem do castigo. Somente em relação às ordens de Jesus as coisas se passam de forma diferente. Aí, a obediência simples é pervertida e transformada em desobediência. Como é isso possível?
    Isso é possível porque esta argumentação errada se baseia, de fato, em algo absolutamente certo. A ordem de Jesus ao jovem rico ou o cha­mado a uma situação em que a fé seja possível têm, de fato, um único objetivo - o de chamar o ser humano à fé em Cristo, à comunhão com ele. Em última análise, nada depende desta ou daquela ação do ser hu­mano; antes, tudo depende da fé em Jesus como Filho de Deus e Medi­ador. De fato, no fim das contas, nada depende de pobreza ou riqueza, casamento ou celibato, de ter ou não ter uma profissão; antes, tudo de­pende da fé. Até aqui, nada de errado; é possível crer em Cristo sendo possuidor de muitos bens, crer de tal forma que possuamos essas rique­zas como se não as possuíssemos. Esta possibilidade, porém, é uma pos­sibilidade extrema da existência cristã como tal, uma possibilidade face à solene expectativa da volta iminente de Cristo, e não se constitui na possibilidade mais próxima e mais simples.
    A interpretação paradoxal dos mandamentos tem sua legitimida­de cristã, mas jamais deverá conduzir à abolição da interpretação sim­ples desses mandamentos. Tal direito, tal possibilidade os tem somente a pessoa que, em determinado momento de sua vida, já se confrontou seriamente com a interpretação simples e que, assim, está na comunhão de Jesus, no discipulado, na expectativa do fim. Esta é a possibilidade infinitamente mais difícil, e mais: a possibilidade impossível, humana­mente falando, de interpretar paradoxalmente o chamado de Jesus, e, como tal, ela corre sempre o perigo extremo de se transformar em seu antônimo, numa saída confortável, na fuga à obediência concreta. Quem ignora que lhe seria muito mais fácil dar uma interpretação singela ao mandamento de Jesus e lhe obedecer ao pé da letra - por exemplo, à ordem de Jesus, vender, de fato, os bens em vez de conservá-los -, quem não sabe disso não tem direito à interpretação paradoxal de suas palavras. Portanto, a compreensão paradoxal do mandamento de Jesus ne­cessariamente inclui sempre a interpretação literal.
    O chamado concreto de Jesus e a obediência simples têm sentido irrevogável. Jesus chama a uma situação concreta em que a fé se torna possível; chama de forma tão concreta, e também quer ser compreendi­do concretamente, por saber que só na obediência concreta o ser huma­no fica livre para a fé.
    Onde é eliminada, de princípio, a obediência simples, aí, uma vez mais, a graça preciosa do chamado de Jesus se transforma em graça barata da auto-justificação. Aí se erige, também, uma falsa lei, que endu­rece os ouvidos ao chamado concreto de Cristo. Esta falsa lei é a lei do mundo, à qual se opõe e corresponde a lei da graça. E o mundo não é, neste caso, o mundo vencido por Cristo e que, na comunhão com ele, tem que ser vencido diariamente; antes, tornou-se lei rígida, inquebrantável, um princípio. A graça, por sua vez, deixa de ser o dom do Deus vivo, pelo qual somos arrancados ao mundo e colocados na obediência de Cristo; antes, é uma lei, divina genérica, um princípio divino, o qual interessa apenas aplicar a casos especiais. A luta de princípios contra o "legalismo" da obediência simples erige ela mesma mais perigosa lei, a lei do mundo e a lei da graça. A luta de princípio contra "o legalismo" é, ela própria, a mais legalista de todas. O legalismo somente é vencido pela verdadeira obediência ao chamado gracioso de Jesus ao discipulado, no qual a lei é cumprida pelo próprio Cristo e por ele revogada.
    Onde a obediência simples é eliminada de princípio, aí se introduz um princípio escriturístico não-evangélico. A condição prévia para a compreensão das Escrituras é então a posse de uma chave que abra o acesso a elas. E aí a chave não é o Cristo vivo em julgamento e graça, e seu uso já não depende apenas da vontade do Espírito Santo vivo; antes, a chave que dá acesso às Escrituras é uma doutrina geral da graça, e nós próprios dispomos dela. O problema do discipulado revela-se aqui tam­bém como problema hermenêutico. Para uma hermenêutica evangélica, tem de ficar bem claro que não é possível nos identificarmos diretamen­te com os discípulos que foram chamados pessoalmente por Jesus; estes personagens chamados nas Escrituras integram a Palavra de Deus e fazem, eles próprios, parte da pregação. Na pregação, não escutamos ape­nas a resposta de Jesus à pergunta de um discípulo - pergunta que bem poderia ser a nossa -, mas pergunta e resposta são ambas, como palavra da Escritura, objeto da pregação. A obediência simples estaria mal com­preendida em termos hermenêuticos se pretendêssemos agir e ser discí­pulos em identificação direta com as pessoas que foram chamadas pes­soalmente por Jesus. Todavia, o Cristo que nos é anunciado nas Escritu­ras é, em toda a sua Palavra, aquele que dá a fé somente ao obediente e que somente ao obediente dá a fé. Não podemos nem devemos ir além da palavra das Escrituras, em busca dos acontecimentos tais quais ocor­reram; antes, as Escrituras como um todo nos chamam ao discipulado, pois não queremos violentar legalisticamente as Escrituras por meio de um princípio, nem que seja a doutrina da graça.
    Permanece, pois, de pé que a interpretação paradoxal do manda­mento de Jesus encerra a interpretação simples, justamente por não pre­tendermos impor uma lei, mas proclamar a Cristo. Quase desnecessário seria dizer uma palavra contra a suspeita de que, por esta obediência simples, desejássemos referir-nos a qualquer mérito do ser humano, a um facere quod in se est, a uma condição prévia da fé que fosse necessá­rio satisfazer. A obediência ao chamado de Jesus nunca é um ato que o ser humano possa realizar por sua própria iniciativa. Assim, desfazer-se dos bens não é ainda a obediência; é possível, inclusive, que semelhante ato seja exatamente o contrário da obediência - a escolha livre de determina­do estilo de vida, de um ideal cristão, de um ideal franciscano de pobreza. Ao dar seus bens, o ser humano poderia não estar fazendo nada mais do que afirmando a si mesmo e a um ideal, e não o mandamento de Jesus, e, em vez de libertar-se, ficar ainda mais escravizado. O passo para dentro da situação jamais é oferta do ser humano a Jesus, mas sempre a oferta graci­osa de Jesus ao ser humano. Ele só é legítimo onde é dado dessa maneira, mas aí não é mais uma possibilidade de que a pessoa pudesse dispor.
    Então disse Jesus a seus discípulos: Em verdade lhes digo que um rico dificilmente entrará no reino dos céus. E ainda lhes digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus. Ouvindo isto, os discípulos ficaram grandemente mara­vilhados, e disseram: Sendo asssim, quem pode ser salvo? Jesus, fitando neles o olhar, disse-lhes: Isto é impossível ao ser humano, mas para Deus tudo é possível. (Mt 19.23-26).
    Do espanto dos discípulos, ao ouvirem a palavra de Jesus, e da pergunta acerca de quem então poderia ser salvo, depreende-se que com­preendiam o caso do jovem rico não como caso isolado, mas como caso geral. Não perguntaram: "Qual rico?", mas em termos bem gerais: "Quem pode ser salvo?"; isso porque todos, inclusive os discípulos, pertencem a esses ricos para os quais é tão difícil entrar no reino dos céus. A res­posta de Jesus confirma que os discípulos haviam interpretado correta­mente suas palavras. Ser salvo através do discipulado não é uma possi­bilidade ao alcance do ser humano, mas para Deus tudo é possível.