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    O Constrangedor Amor de Cristo - R. M, Mccheyne (1813 – 1843)





    "Porque o amor de Cristo nos constrange." — 2 Corintios 5:14

    De todos os aspectos do caráter do apóstolo Paulo, a sua atividade incansável era a mais mar­cante. Com base na sua história inicial, que nos conta acerca de seus esforços pessoais como assolador da Igreja Primitiva, quando ele era um injurioso blasfemador e perseguidor, fica muito claro que essa era a característica proeminente de sua mente natural. Mas quando agradou ao Senhor Jesus Cristo manifestar nele toda a Sua longanimidade e fazer dele um padrão para aqueles que de­pois haveriam de crer n'Ele, é belo e muito instru­tivo ver como as características naturais deste ho­mem, atrevidamente mau, tornaram-se não somente santificadas, como também revigoradas e aumenta­das. Verdadeiramente todo aquele que está em Cris­to é uma nova criação, "as coisas velhas já passa­ram; eis que tudo se fez novo". "Em tudo somos atribulados, porém, não angustiados; perplexos, po­rém não desanimados; perseguidos, porém não de­samparados; abatidos, porém não destruídos", Tal era a figura fiel de Paulo depois de convertido. Co­nhecendo os terrores do Senhor e a temível situação de todos os que estavam ainda em seus pecados, o alvo de sua vida era persuadir os homens. Ele lutava para que, se possível, recomendasse a ver­dade para as suas consciências. "Porque, se enlou­quecemos é para Deus; e, se conservamos o juízo, é para vós", (versículo 13).

    Não importa se o mundo nos considera sábios ou loucos, a causa de Deus e das almas humanas é aquela na qual estamos pondo todas as nossas ener­gias. Quem, então, não estaria disposto a perguntar acerca da motivação de todos esses labores sobre­naturais? Quem não desejaria ter escutado dos pró­prios lábios de Paulo o princípio poderoso que o impelia através de tantas labutas e perigos Que fórmula mágica apossou-se dessa mente poderosa, ou que influência astrológica imperceptível, com poder incessante, encorajou-o a avançar através de todos os desalentos, fazendo-o indiferente tanto ao riso sarcástico do mundo como ao temor do homem; igualmente indiferente ao sorriso do cético ateniense, da carranca do luxurioso coríntio e da fúria do ju­deu de mente fechada? Que diz o próprio apóstolo? Temos sua explicação do mistério nas palavras se­guintes: "O amor de Cristo nos constrange".
      O CONSTRANGEDOR AMOR DE CRISTO

    Desde que a morte de Cristo é apontada por todos como o exemplo de Seu amor, torna-se óbvio pela explicação seguinte que aqui se trata do Seu amor para com o homem e não do nosso amor para com Ele. (Veja 2 Coríntios 5:15). Foi a visão da ex­traordinária compaixão do Salvador, movendo-o a morrer pelos Seus inimigos, a sofrer tremendamente por todos os pecados deles e provar a morte por todos os homens, que deu a Paulo o impulso em cada combate, que tornou qualquer sofrimento leve para ele e fez com que nenhum mandamento lhe fosse pesado. Ele correu com paciência a carreira que lhe estava proposta. Por que? Porque -olhando para Jesus ele viveu como um homem "crucificado para o mundo e o mundo crucificado para ele". De que forma? Olhando para a cruz de Cristo.

    Como o sol natural exerce uma poderosa e inces­sante atração sobre os planetas que giram ao seu redor, assim também fez o Sol da justiça, que de fato nascera no apóstolo Paulo, com um brilho su­perior ao do sol meridiano, exercendo sobre sua mente uma contínua e toda-poderosa energia, constrangendo-o a viver dali para frente não mais para si mesmo, e sim para Aquele que morrera e ressur­gira por ele. Outrossim, observe que isso não foi uma atração temporária ou intermitente que se exer­ceu sobre seu coração e vida, mas uma contínua e permanente atração. Ele não diz que o amor de Cristo uma vez o constrangeu ou que o constrange­ria, nem que nos momentos de emoção, de oração ou de devoção especial o amor de Cristo costumava constrangê-lo. O apóstolo disse simplesmente que o amor de Cristo o constrange. Ê o sempre presente, sempre permanente, sempre ativador poder que for­ma o motivo principal de todo o seu trabalho; de tal forma que, retirado isso, suas energias se vão embora e Paulo se torna fraco como os outros homens.

    Lendo essas palavras, porventura haveria um coração desejoso de possuir tal princípio-mestre? Não haveria alguém que tenha chegado àquele estágio mais interessante da experiência cristã, no qual es­teja suspirando por um poder para tornar-se novo? Você já entrou pela porta estreita da fé. Você já viu que não há paz para o não justificado e por­tanto tens te revestido de Cristo como tua justiça e já sentes algo do gozo e paz do crente. Você pode olhar para tua vida do passado, sem Deus no mun­do, sem Cristo no mundo e sem o Espírito no mun­do; pode ver a ti mesmo como um condenado rechaçado e então diz: "Mesmo que lavasse minhas mãos em água de neve, ainda assim minhas próprias roupas me aborreceriam". É verdade que você pode fazer tudo isso com vergonha e auto-reprovação, porém, sem desânimo e desespero, pois teus olhos têm sido erguidos com fé para Aquele que foi feito pecado por nós e você está persuadido de que, como agradou a Deus lançar todas as tuas iniquidades na conta do Salvador, assim Ele deseja e tem sempre desejado, atribuir toda a justiça do Salvador a você. Sem desespero, disse eu? Mais ainda, com gozo e cântico; pois, se na realidade crês de todo o cora­ção, então chegaste à bem-aventurança daquele a quem Deus imputa justiça sem obras; o qual Davi descreve, dizendo: "Bem-aventurado é aquele cuja transgressão é perdoada, cujo pecado é coberto. Bem-aventurado é o homem a quem o Senhor não imputa iniqüidade". (Salmo 32:1-2).

    Esta é a paz do homem justificado. Mas esta paz é um estado de perfeita bem-aventurança? Não há mais nada a desejar? Eu apelo àqueles que sabem o que é ser justificado pela fé. Que é que ainda turva o semblante, que reprime a exultação do es­pírito? Por que nem sempre podemos participar na canção de ações de graças, "Bendiz o Senhor, ó minha alma e não te esqueças de nenhum de seus benefícios. É ele que perdoa todas as tuas iniquidades"? Se já recebemos o perdão dos nossos pe­cados, por que seria necessário argumentarmos como o salmista que clama: "Por que estás abatida ó minha alma e por que te perturbas em mim"? Meus amigos, entre vocês não existe um crente ver­dadeiro que tenha deixado de sentir este inquietante sentimento do qual estou falando. Pode haver al­guns que o tenham sentido de maneira tão dolorosa que, como uma nuvem negra, tem obscurecído a doce luz da paz do evangelho e o brilho do rosto da pessoa reconciliada. O pensamento é este: "Sou um homem justificado, mas ai de mim! não sou um ho­mem santificado, Posso olhar para minha vida pas­sada sem desespero, mas como poderei olhar para frente, àquilo que está no futuro"?

    Não há um panorama moral mais pitoresco em todo o universo do que o apresentado. por essa alma. Perdoadas todas as transgressões passadas, o olhar volta-se para o interior com uma clareza e imparcialidade desconhecidas anteriormente, e aí contempla suas afeições voltadas para o pecado as quais, como rios correntosos, já cavaram um canal profundo no coração. Também vê suas crises perió­dicas de paixão, outrora irresistível e sobrepujante como as marés do oceano junto com suas perversidades de temperamento e hábito, pervertidos e obs­tinados, como os ramos retorcidos de um carvalho impedido de crescer. Que cena temos aqui! que antecipação do futuro! que pressentimentos de uma luta em vão contra a tirania da concupiscência! contra a velha maneira de agir, de falar e de pensar! Não fosse a esperança da glória de Deus, que é um dos benefícios concedidos ao homem justificado, quem ficaria surpreso se esta visão de terror levasse o homem de volta, como um cachorro ao seu vô­mito, ou como a porca que foi lavada a mergulhar novamente no lamaçal?

    É para o homem que está exatamente nessa situa­ção, clamando dia e noite: como poderei me tor­nar novo? Que bem faz a mim o perdão dos pecados passados se não sou libertado do amor ao pecado? — é para esse homem que vamos agora, com todo o zelo e afeição indicar o exemplo de Paulo e o poder interior que operou nele. "O amor de Cristo" (diz Paulo)   "nos constrange". Nós também somos homens que temos as mesmas paixões que vocês; aque­la mesma visão que vocês vêem com desânimo den­tro de si, foi revelada da mesma maneira para nós em todo o seu poder desencorajante. Contínua e re­petidamente a mesma visão horrível de nossos pró­prios corações se nos descortina. Mas temos um encorajamento que nunca falha. O amor do Salva­dor crucificado nos constrange. O Espírito é dado àqueles que crêem, e sendo Ele um agente todo-poderoso, tem um argumento que nos comove con­tinuamente — o amor de Cristo.

    Meu objetivo presente é mostrar como esse argu­mento, nas mãos do Espírito, realmente impulsiona o crente a viver para Deus; como a verdade sim­ples do amor de Cristo para com o homem, de con­tínuo apresentado à mente pelo Espírito Santo, de­veria habilitar qualquer homem a viver uma vida santa. Se existe algum homem entre vocês cuja grande interrogação é: "Como serei salvo do meu pecado ou de que maneira andarei como um filho de  Deus?" estou ansioso para atrair seu ouvido e coração mais que a todos os outros.