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    Santificação vem pela graça - A.Booth (1734-1806).


    Até agora tenho escrito sobre a mudança ocorrida no modo de Deus pensar em relação àqueles que Ele faz Seus filhos. Agora Ele pensa misericordiosamente a respeito deles como Seus filhos escolhidos, justificados e adotados em Sua família.
    Entretanto, Deus não apenas pensa de modo diferente sobre eles, graciosamente, Ele também os faz realmente diferentes daquilo que eram antes de serem chamados. Deus os chama enquanto são ímpios, mas não permitirá que eles continuem ímpios. Bondosamente, Ele lhes dá amor para com Ele e para com Seus caminhos. A santificação é o processo espiritual pelo qual a imagem de Deus é renovada nos que são justificados. A conseqüência desse processo torna-os verdadeiramente santos.
    A justificação e a santificação procedem da misericor­diosa vontade de Deus. Contudo, são realidades diferentes. A justificação é um ato único pelo qual Deus, por Sua graça, declara o ímpio sem culpa. A santificação é um processo contínuo pelo qual Deus, por Sua misericórdia, muda os hábitos e o comportamento do crente, levando-o a praticar obras piedosas.   A primeira (a justificação) nos livra da condenação do pecado; a segunda (a santificação) nos livra da contaminação do pecado. A primeira é instantânea; a segunda, progressiva.
    As pessoas para as quais Deus outorga a bênção da santificação são as pessoas justificadas. A santidade é uma maravilhosa bênção do novo concerto, não uma condição para ingressarmos nesse concerto. A santidade é, também, um dom da graça de Deus. Para explicar isso mais claramente, permita-me mostrar que somente uma pessoa justificada pode praticar obras boas e piedosas.
    Para um ato tornar-se uma "boa obra" aos olhos de Deus, deve ser praticado por um motivo correto, de maneira correta e com um objetivo correto. Deve ser expressão do amor a Deus. Deve ser feito segundo a maneira que Deus ordena. Deve ter como objetivo apenas a glória de Deus. Nenhum ímpio pode praticar uma boa obra com motivo e objetivo corretos, ainda que aja de maneira correta.
    As boas obras que o crente faz não visam à obtenção de sua salvação. Essa já lhe foi dada como um dom da graça de Deus. Por isso, agora, ele deseja guardar as leis de Deus como expressão de sua gratidão e amor para com esse Deus misericordioso. Assim, não repudiamos a lei de Deus como irrelevante. E como Jesus disse: "Aquele que tem os meus mandamentos, e os guarda, esse é o que me ama" (João 14:21). A verdadeira obediência procede do amor a Deus; o verdadeiro amor é obediente a Deus.
    A santidade nos crentes é resultado deles estarem unidos a Cristo. O Espírito Santo vive neles porque estão unidos a Cristo, E o Espírito usa a Bíblia para influenciar os crentes a serem santos no coração e na vida. Como Jesus orou: "Santifica-os na verdade, a tua palavra é a verdade" (João 17:17). E desde que a Bíblia é a base de nossa fé, quanto mais claro entendermos a sua verdade, tanto mais o fruto da santidade será produzido em nossas vidas.
    Há certos argumentos nas Escrituras usados para impulsionarem os crentes a buscar a santidade. Ei-los:
    i. São eleitos de Deus ou comprados como povo de Deus. Será que o preço pago a favor desse povo - o precioso sangue de Jesus - não é suficiente para persuadi-lo a odiar o pecado e a amar a lei de Deus? Estando ao pé da cruz e vendo os sofrimentos do Salvado os cristãos devem ser ansiosos para opor-se a todo pecado: "Se alguém não ama ao Senhor Jesus Cristo, seja anátema" (1 Cor. 16:22).
    2.      Eles têm uma chamada celestial: "Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver" (1 Ped. 1:15). Deus tem chamado os crentes para que sejam santos. Esse fato os encorajará a serem aquilo que devem ser.
    3.      As compassivas misericórdias de Deus, especialmente a bênção do livre perdão de todos os pecados, produzem uma prazerosa obediência a Deus: "Rogo-vos pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional" (Rom. 12:1). Essas misericórdias quando recebidas, mesmo imerecidas, levam o crente a magnificar a graça de Deus.
    Os crentes são adotados por Deus como filhos e herdeiros. Desde que o Espírito Santo, que habita no crente, pode ser entristecido quando ele procede impiamente, o crente é fortemente induzido a não viver de modo descuidado.
    5.     As promessas de Deus também estimulam Seus filhos a prosseguirem em busca da santidade: "Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo" (2 Ped. 1:4).
    6.     A disciplina que Deus, como Pai, exerce sobre Seus filhos. É dever de um pai amoroso disciplinar seus filhos quando eles desobedecem. "E, na verdade, toda correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um espírito pacífico de justiça nos exercitados por ela" (Heb. 12:11). E triste quando os crentes só procuram a santidade devido temerem o castigo de Deus; contudo, essa procura nasce do bondoso amor de Deus e o castigo é uma boa razão para persuadir-nos a evitar a desobediência.
    Esses argumentos não constituem todos os modos na Bíblia pelos quais os crentes são encorajados a buscar a santidade; porém, talvez sejam os principais. Servem para provar que a santificação é uma parte importante da nossa salvação. A graça de Deus para com os pecadores não é uma desculpa para que eles permaneçam na impiedade. Ainda que a santidade não lhes dê o direito à vida eterna, os filhos de Deus devem lembrar-se sempre de que não haverá evidência de que estão salvos, se faltarem às suas vidas os frutos da santidade.
    Desde que nenhuma obra é aceitável a Deus, exceto aquelas que são feitas como expressão do verdadeiro amor para com Ele, é claro também que as melhores boas obras dos incrédulos não são mais do que esplêndidas faltas! E absurdo dizer aos pecadores que façam isto ou aquilo como boas obras para conhecerem a Cristo como seu Salvador. O conhecimento de Cristo como Salvador não é adquirido pelo pecador, mas é graciosamente concedido por Deus.

    "Sem isto, tudo aquilo que vocês fazem, ainda que possa agradar às vossas mentes ou tranqüilizar as vossas consciências, não é aceito por Deus.   Vocês correm e podem fazê-lo sinceramente; contudo, correm fora do caminho. Empenham-se, mas não legitima­mente, e jamais receberão a coroa... O fundamento da obediência espiritual tem que estar baseado na graça de Deus... Daí tem que proceder as obras da obediência, se quiserem encontrar aceitação diante de Deus."*

    Portanto, é a graça manifesta naquilo que Deus fez que é o incentivo para a verdadeira santidade. Esforça-te, então, servo de Deus, para ter uma idéia clara do que é a graça divina.   A mesma graça que prove, revela e concede as bênçãos da salvação, torna-se a mestra que lhe ensina e estimula a andar em santos caminhos.
    *Esse parágrafo é citado de um texto de John Owen sobre o Salmo 130