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    A eleição, ou graça diferenciada - Abraham Booth (1734-1806)


    Deus é glorioso porque é perfeito. Tudo quanto Ele faz é perfeito. Portanto, precisamos dizer que, embora o mundo ao nosso redor e os homens nele estejam agora perversa­mente afetados pelo pecado, tem que haver ainda algum meio pelo qual a glória de Deus possa ser estabelecida nele. Questionar isso é negar que tudo o que Deus faz chega à perfeição, como também sugerir que Deus foi incapaz de impedir que o mundo se desenvolvesse conforme tem desenvolvido.
    Deus criou Adão e lhe deu liberdade de escolha, mesmo sabendo que ele ia pecar e que faria toda a raça humana ficar sujeita à maldição. Se tudo quanto Deus faz é perfeito, então esse acontecimento deve ser parte de um processo que demonstrará a gloriosa perfeição de Deus. As Escrituras ensinam que, por escolher salvar graciosamente e de maneira gloriosa uma grande família dentre a raça decaída de Adão, Deus demonstra perfeição ilimitada.   Esse ato da misericordiosa escolha de Deus é comumente chamado de eleição, ou graça diferenciada.
    A doutrina da eleição é atualmente uma verdade muito combatida. Sem dúvida, no passado ela foi ensinada como importante verdade, especialmente pelos Reformadores. Mas agora (isto é, nos dias de Abraham Booth) esta doutrina é tida como uma ofensa à razão humana, imoral, danosa à verdadeira piedade e lesiva à humanidade em geral. Não admira, pois, que a verdade seja impopular!
    Ora, por que será que esta verdade é tão combatida? A menos que eu esteja grandemente enganado, é porque ela põe fim ao nosso orgulho humano. Fazendo a salvação depender totalmente da misericordiosa decisão de Deus, a eleição não faz diferença entre uma pessoa e outra - no tocante a uma ser salva e outra não. Só Deus recebe a glória por salvar uma pessoa. Todavia, a orgulhosa independência dos corações humanos ressente-se desse fato. Há também outras razões pelas quais essa verdade é combatida; porém a razão apontada é suficiente, pois não é o meu propósito aqui argumentar em defesa da eleição. Outros, com mais tempo e habilidade do que eu, já o fizeram muito bem. Eu simples­mente explicarei o que significa essa verdade e como ela nos pode ajudar.
    Desde que as Escrituras falam sobre os "eleitos", segue--se que nem toda a raça humana está incluída nesse termo. A escolha de uns implica na rejeição de outros. Isso está claramente implicado nas palavras "eleito" e "escolhido".
    Os chamados "eleitos" nas Escrituras não são todas as nações ou comunidades, mas indivíduos. Eles são referidos como tendo os seus nomes "escritos nos céus" (Luc. 10:20) e "no livro da vida" (Apoc. 20:15). São referidos como os que "foram ordenados para a vida eterna" (Atos 13:48). Desses versículos podemos concluir que os eleitos são pessoas específicas.
    Isso é também confirmado pelo fato de que a salvação foi obtida por Jesus Cristo, que Se tornou o Mediador e Substituto desses pecadores. E absurdo supor que alguém possa ser substituto ou mediador de pessoas desconhecidas. Se um homem se torna legalmente responsável pelas dívidas de outro, esse homem, certamente, deverá conhecer muito bem aquele endividado.
    Uma pessoa só pode ter certeza da salvação se ela for precisamente identificada. Suponhamos que o propósito de Deus simplesmente tivesse sido o de salvar "todos os que cressem em Jesus", então permaneceria duvidoso se alguém seria atualmente salvo, porque não se saberia se alguém iria crer.
    Contudo, se você disser: certamente alguns creriam, responderei que uma tal certeza tem que surgir do propósito de Deus. Não há outra maneira de saber-se que o futuro é certo. Ora, se Deus planejou que alguns haveriam de crer, Ele deve saber quem são eles, porque a fé deles "é dom de Deus" (Ef. 2:8). Também parece claro que Deus sempre conheceu os que iriam ser salvos, uma vez que algumas passagens das Escrituras indicam que os que crêem foram * escolhidos "antes da fundação do mundo" (Ef. 1:4).
    Seria possível descobrir alguma razão por que os eleitos foram escolhidos e os outros foram deixados de lado?
    Nenhuma razão pode ser encontrada nas próprias pessoas, pois toda a humanidade é indigna de receber a bênção de Deus. A única razão para se estabelecer a diferença entre as pessoas é dada pelas Escrituras. Deus diz"...compadecer-me-ei de quem eu me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia" (Rom. 9: 15).
    Mesmo que, originalmente, não houvesse diferença entre indivíduos, poderia ser que Deus previu os que have­riam de crer e, portanto, os escolheu? Não, absolutamente! Porque, então, a graça não reinaria, mas dependeria da fé das pessoas.
    As Escrituras mostram que a fé não é a causa que se patenteia na eleição, e sim o resultado: "...e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna" (Atos 13:48). "Como também nos elegeu antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos..." (Ef. 1:4). "E aos que predestinou, a estes também chamou" (Rom. 8:30). "Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas" (João 10:26). "Deus nos chamou não segundo as nossas obras, mas segundo o seu propósito e graça, antes dos tempos dos séculos" (2 Tim. 1:9).
    Fé e santidade são como brotos e ramos comparados com a raiz de uma planta; não são a raiz nem o fruto; não são a causa nem o resultado. São o resultado do crescimento da raiz e os meios pelos quais se formam os frutos. Do mesmo modo, fé e santidade são o resultado da graça e os meios para alcançar a glória, "...pela graça sois salvos, por meio da fé" (Ef. 2:8). A fé não é a causa, mas o resultado da eleição.
    Além de tudo isso, se as pessoas foram eleitas porque Deus sabia que elas iam crer, por que então precisavam ser eleitas? Os que têm fé hão de ser salvos, de qualquer modo! Se a fé já existe, a eleição é desnecessária! No entanto, em muitas passagens as Escrituras insistem sobre o fato da eleição.
    Paulo nos explica a questão mais plenamente em Romanos 9:10-23. Ele responde também a supostas objeções levantadas contra a eleição, insistindo em que Deus, se é Deus, tem que ter o direito de fazer o que deseja. Se aos reis humanos é permitido fazer aquilo que desejam, podemos nós negar a Deus - que governa sobre todas as coisas - os direitos reais?
    A suprema perfeição de Deus significa que Ele não pode tomar decisões insensatas nem governar de maneira injusta, nem planejar sem amor. Portanto, depois de examinar cuidadosamente a soberania de Deus, Paulo exclama: "Ó profundidade das riquezas tanto da sabedoria como da ciência de Deus" (Rom. 11:33). O que quer que Deus faça, Ele o faz como um Pai sábio e compassivo. Por que Ele escolheu salvar alguns, quando todos são indignos? Porque nosso Criador é misericordioso! Por que escolher uns e não outros? Porque nosso Criador tem indisputável direito de fazer aquilo que deseja com o que é Seu!
    Agora quero considerar aquilo que Deus pretendeu realizar mediante o uso de Sua graça discriminativa. Com muita facilidade presumimos que Deus só Se interessa em fazer felizes os eleitos e em atormentar os rejeitados. Esse é um grande erro! E blasfemo sugerir que um Deus   supremamente bom tem prazer na miséria de pecadores atormentados.
    A Bíblia afirma, claramente, que a razão pela qual Deus age em graça é o louvor de Sua própria glória. Quando Deus pune um pecador, Ele mostra o quanto Sua natureza santa se opõe ao pecado. Quando Deus salva pecadores daquilo que eles merecem, Ele mostra a Sua misericórdia estupenda e graciosa. Todos os atos de Deus, portanto, manifestam algum aspecto de Sua glória. Os atos de Deus são feitos "para dar a conhecer as riquezas de sua glória" (Rom. 9:23).
    Assim, Deus faz o que faz a fim de mostrar Sua glória. E não somente isso. O modo como Deus faz as coisas, revela quão glorioso Ele é. A salvação de pecadores é efetuada pela vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, o eterno Filho de Deus, e pelo Espírito Santo operando na vida dos crentes, possibilitando-lhes serem santos. Todos estes atos de Deus são gloriosos!
    Ademais, aquilo que Deus faz é imutável. Esse fato demonstra a Sua glória. Como? Se Ele mudasse de idéia, teria que ser para melhor ou para pior. Se for para melhor, então Ele não era perfeitamente sábio antes. Se for para pior, então Ele não é perfeitamente sábio agora. Portanto, o fato de Deus nunca ter necessidade de mudar de idéia é outra evidência de Sua gloriosa perfeição. Ele sempre está certo, jamais precisando de mudar. "E aos que predestinou, a estes também glorificou" (Rom. 8:30). Se Deus pudesse mudar de idéia, Paulo não estaria com tanta certeza como está! Mas, desde que a eleição daqueles que Ele quer salvar é imutável, segundo a Bíblia, sabemos também que isso tem que ser gloriosamente certo!