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    Doenças e Enganos - James Packer ( 22 de julho de 1926)



    Abri os olhos e descobri que estava deitado em uma cama que não conhecia. Como minha cabeça estava um pouco levantada, pude ver, na penumbra, o que havia no quarto. A primeira coisa que me veio à mente foi a de estar no centro de Nova York, na estação de trem e metrô conhecida como Grand Central, em plena noite. (Eu tinha visto, há pouco tempo, uma foto noturna do enorme salão principal daquela estação e pensei estar reconhecendo aquele local.) Então vi minha mãe sentada à esquerda da cama. Ela estava usando o grande avental florido e o lenço na cabeça que costumava usar para limpar a casa. Nada disse, apenas sorriu e deu-me algo gelado para beber - que bebi com um canudo - em um recipiente branco que parecia com o que é usado para servir chá. Mais tarde, eles me disseram que logo voltei a dormir.
    Na verdade, o que descobri, quando acordei no dia seguinte, era que estava muito longe da estação Grand Central. Estava na Inglaterra, internado no hospital de minha cidade natal, onde fui submetido a uma cirurgia por motivo de uma fratura no crânio, que levou todos a pensarem que ficaria com danos irreparáveis no cérebro. O que vi naquela noite foi uma imagem falsa e parcial, porque aquela enfermaria não tinha nenhuma semelhança com a estação de trem, quer fosse de dia, quer fosse de noite. A pessoa ao lado de minha cama era uma enfermeira de uniforme, que vestia um avental branco, um vestido azul e uma pequena toca na cabeça. Vi o que vi (e se fechar os olhos posso vê-lo agora), mas não estava vendo o que estava ali. Meu cérebro danificado estava me pregando peças. A realidade era diferente daquilo que eu pensava que fosse.
    Tudo isto aconteceu em Í933, quando eu tinha apenas sete anos de idade. Que razões tenho para mencionar este fato acontecido no passado? Creio que ele ilustra duas verdades que tenho de ressaltar inúmeras vezes quando converso com outros cristãos hoje.
    Primeira Verdade
    Todos nós somos pessoas inválidas no hospital de Deus. Em termos morais e espirituais, estamos todos enfermos e machucados, doentes e deformados, cicatri­zados e doloridos, fracos e desequilibrados, em um grau muito mais profundo do que imaginamos. Com o cuidado de Deus, estamos melhorando, mas isto não quer dizer que estejamos bem. O cristão moderno prefere desfrutar das bênçãos do presente a confiar nas promessas para o futuro. Gosta de testemunhar que, no passado, era cego, surdo e, de fato, morto para o que se referia a Deus. Mas agora, por meio de Cristo, fomos levados para a vida, radicalmente transformados e abençoados com saúde espiritual. Graças a Deus, há uma verdade real nisto. Mas a saúde espiritual implica em sermos santos e completos. Do contrário, não desfrutaremos de uma saúde plena.
    Precisamos entender que a saúde espiritual, da qual damos testemunho, é apenas parcial e relativa; uma questão de sermos menos enfermos e incapacita­dos agora do que éramos antes. Quando comparados aos padrões absolutos de saúde espiritual que vemos em Jesus Cristo, todos nós somos inválidos no proces­so de cura. Ainda continua válido o velho ditado que diz que a igreja é o hospital de Deus. Nossa vida espiritual encontra-se, na melhor das hipóteses, em um estado de convalescença, que pode ser facilmente interrompido. Quando existem ten­sões, pressões, perversidades e frustrações na igreja de Cristo, convém lembrar que nenhum cristão ou igreja possui o atestado de saúde perfeita, que corresponde ao atestado de bem-estar físico total, alvo dos que buscam estar em perfeita forma física hoje em dia. É correto e perfeitamente natural buscar o bem-estar espiritual pleno, mas acreditar que se está prestes a alcançar esse objetivo é enganar-se a si mesmo.
    Nem sempre é fácil perceber que alguém está doente. Lembro-me de meu estado de saúde naquele hospital, em 1933, onde recebi cuidados intensivos por vários dias, segundo recomendações médicas, uma vez que ninguém sabia ao certo os danos causados ao meu cérebro. Também me recordo de como foi difícil para mim imaginar-me na situação de um garoto doente, já que, em ne­nhum momento, eu sentia os sintomas da doença. Minha enfermeira, com uma eloqüência galesa, repreendia-me por colocar a vida em risco ao me levantar da cama e sair andando pelos corredores, e ao ficar em pé, pulando em cima da cama. Depois disso, eu ficava deitado, seguindo as instruções - contudo, não me sentia nem um pouco convencido da necessidade de estar daquela maneira. (Ga­rotos de sete anos de idade podem ser tão opiniosos quanto um adulto e eu certamente o era.)
    Da mesma maneira, os cristãos de hoje podem se imaginar fortes, saudáveis e santos quando, na verdade, estão fracos, enfermos, e cometendo pecados facil­mente observáveis, não somente pelo Pai celeste, mas também pelos outros cris­tãos. No entanto, o orgulho e a complacência fecham nossos olhos para esta realidade. Não queremos que nos digam quando estamos escorregando; pensan­do que estamos firmes, criamos as condições para a queda e, fatalmente, termina­mos caindo.
    Em bons hospitais, os pacientes recebem tanto os curativos regulares quanto o cuidado constante, e a linha terapêutica adotada determina diretamente a forma de aplicação do tratamento. No hospital de Deus, a linha terapêutica escolhida pela equipe médica, formada pelo Pai, Filho e Espírito Santo, queira a nossa completa restauração à plenitude da imagem divina, é chamada de santificação. Este é um processo que inclui, por um lado, medicamentos e dieta (na forma de instrução bíblica e admoestação que chegam de várias formas ao nosso coração) e, por outro, testes e exercícios (na forma de pressões internas e externas, que são providencialmente permitidas pelo corpo clínico, às quais temos de fornecer respostas ativas). O processo continua enquanto estivermos neste mundo, o que é algo cuja decisão de cada caso cabe a Deus.
    Como qualquer outra pessoa que se encontra em tratamento, ficamos impa­cientes com o processo de recuperação. A pergunta, que também é título do pequeno e maravilhoso livro de Lane Adams sobre a terapia de santificação de Deus, "Por que está demorando tanto para que eu fique curado?"1, é quase sempre o grito do nosso coração a Deus. A verdade é que Deus sabe o que está fazendo, mas, às vezes, por razões ligadas à maturidade e ao ministério que ele nos tem preparado, o processo caminha devagar. Essa verdade é algo que preci­samos aprender a aceitar com humildade. Ao contrário de Deus, temos pressa.
    Segunda Verdade
    Todos nós estamos propensos a cometer enganos que nos prejudicam. Em minha primeira noite no hospital, o local não era o que pensei que fosse e a pessoa ao lado de minha cama não era quem pensei que fosse: eu estava em um estado de falsa realidade. No dia seguinte, senti-me bem e não conseguia pensar que estava doente, mas isso também era um engano. Da mesma maneira, os cristãos freqüentemente se enganam a respeito da fé e da vida cristã.
    Existem os enganos dos erros teológicos diretos nas questões relacionadas à natureza, caráter, maneiras e propósitos divinos. Esses enganos são freqüentes na teologia liberal e moderna e na teologia de processo.
    Existem os enganos da dúvida e da descrença. Algo horrível acontece, e logo concluímos que Deus esqueceu-se de nós ou se voltou contra nós, ou talvez nem mesmo exista.
    Existem os enganos da autoconfiança. Imaginamos que finalmente vencemos determinado pecado ou fraqueza que sempre nos levava a cair. Relaxamos, e uma sensação de bem-estar, segurança e triunfo nos invade. Daí vem o infortúnio duplo de uma nova pressão externa e de uma renovada demanda interior e, mais uma vez, passamos pela frustração da queda.
    Existem também os enganos que rompem relacionamentos. Não entendemos bem os motivos e propósitos de outras pessoas. Responsabilizamos os outros por provocarem tensões e gerarem a hostilidade, enquanto fechamos os olhos para a parte que nos toca na criação desses problemas.
    Além disso, existem os enganos que resultam de não se fazer distinção entre coisas que são diferentes - por exemplo, identificar o evangelho bíblico com o legalismo, o antinomismo, o socialismo e o racismo supostamente centrados em Jesus; igualar o aconselhamento psicológico secular à orientação bíblica pastoral; ou igualar a passividade interior como uma fórmula para a santidade ao convite bíblico à disciplina do esforço moral no poder do Espírito Santo. Tais equívocos provocam desastres.
    E, por fim, existem os enganos sobre a vida cristã - entre eles, que ela será fácil, bem-sucedida, saudável, próspera e entusiasticamente marcada por mila­gres; que ações como fornicação e sonegação de impostos realmente não são relevantes, desde que outras pessoas não tomem conhecimento; que Deus real­mente quer que façamos o que temos vontade de fazer e assim por diante. Satanás, o pai da mentira e antigo mestre na arte do engano, trabalha constantemente para desviar e confundir o povo de Deus, de modo que a humildade da auto-desconfiança, a teimosia do bom senso, que costumava ser chamada de pru­dência, e o hábito de provar por meio das Escrituras coisas até aqui tidas como certas, tornam-se virtudes de grande importância.
    No decorrer deste livro, estarei constantemente recorrendo às Escrituras. Esta é a única maneira segura de proceder, já que todos nós somos tão vulneráveis aos enganos sobre a santidade quanto o somos a respeito de qualquer outra coisa.
    A Receita Divina para Nós
    O tipo de médico de que gosto (e espero que você também) conquista a confiança do paciente e explica o diagnóstico, prognóstico e tratamento que pre­tende lhe dar. Em seguida, explica o que espera alcançar com sua prescrição. O paciente fica a par de todo o seu quadro clínico e, portanto, sabe onde se encon­tra. Nem todos os médicos agem desta maneira, mas os melhores agem - e assim também procede o Grande Médico de nossa alma, nosso Senhor Jesus Cristo. Seu estilo terapêutico, se é que posso me expressar nestes termos, é comunicativo, do começo ao fim. A Bíblia, ouvida e lida, pregada e ensinada, interpretada e aplicada, é tanto o canal quanto o conteúdo de sua comunicação. E como se Jesus nos transmitisse diretamente as Escrituras canônicas, dizendo-nos que elas são a fonte de autoridade e de auto-suficiência da qual devemos aprender o que fazer para que sejamos seus seguidores e também, o que ele tem feito, está fazendo e fará para livrar-nos da enfermidade fatal do pecado. Então, pense em sua Bíblia como um presente de Jesus Cristo para você; pense nela como uma carta escrita pelo Senhor para você. Veja o seu nome, escrito na capa da Bíblia, como se o próprio Jesus o tivesse escrito ali. Pense em Jesus toda vez que ler a sua Bíblia. Pense nele lhe perguntando, página após outra, capítulo após outro, o que você acabou de aprender sobre a natureza, necessidade, méto­do e efeito da graça que ele concede, e sobre a trilha do discipulado leal na qual ele lhe convida a andar. Esta é a melhor maneira de aproveitar sua leitura da Bíblia. As Escrituras somente cumprem o seu propósito divino de ser o canal de luz e vida, quando o que lemos na Palavra escrita, alimenta o nosso relacionamen­to com a Palavra Viva (Jesus).
    Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos ama­dos pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade, para o que também vos chamou mediante o nosso evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo. 2Ts 2.13,14
    Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos que são forasteiros da Dispersão no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, eleitos, se­gundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas. lPe 1.1,2