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    Ignorância divina na Escritura? John Frame


                      
    Nós devemos considerar também a controvérsia dos teístas relacionais quando dizem que as próprias Escrituras revelam um Deus que, em alguns momentos, é ignorante sobre o futuro. Pinnock 
    diz:
    Muitos crêem que a Bíblia diz que Deus tem presciência exaustiva, mas não é assim. Ela diz, por exemplo, que Deus provou Abraão para ver o que ele faria e, depois do teste, disse por meio do anjo: "Agora sei que temes a Deus" (Gn 22.12). Essa foi uma peça de informação que Deus estava ansioso para verificar. Em outro lugar, Moisés diz que Deus estava prosando o povo para saber se ele realmente o amava ou não (Dt 13.3).

    Ele também menciona Jeremias 32.35 ("nem me passou pela mente que fizessem tal abominação") e os versos nos quais Deus espera que "talvez" seu povo o ouça (Jr 26.3; Ez 12.3, etc). Durante toda a discussão, Pinnock volta várias vezes a falar sobre a importância da liberdade libertarista, até o ponto em que o leitor é levado a perguntar se Pinnock não está lendo esses textos com lentes libertaristas.

    Como indiquei anteriormente, outros teístas relacionais também discutem passagens nas quais, do seu ponto de vista, Deus está em dúvida, muda de opinião, é frustrado, descobre novas informações, e assim por diante. Nesse artigo, eu não posso tratar exaustivamente dessa lista de passagens, mas sugiro alguns princípios que devem orientar a interpretação.

    1. Tipicamente, as passagens nas quais Deus "descobre" alguma coisa ocorrem em contextos judiciais. Em Gênesis 3.9, Deus pergunta a Adão: "Onde estás?". Esse não é um pedido de informação. Nesse verso, Deus começa seu exame judicial. A resposta de Adão confirma a acusação de Deus, e Deus responde em juízo e em graça. Mas o mesmo contexto existe em outros textos nos quais Deus "desce" e "descobre" alguma coisa. Veja Gênesis 11.5; 18.20, 21; 22.12; Deuteronômio 13.3; Salmos 44.21; 139.1,23,24. Quando Deus se aproxima, ele se aproxima como juiz. Ele conduz um "encontro de fato" pela observação pessoal e pela interrogação, e depois apresenta seu veredicto e sen tença (geralmente, é claro, mitigada por sua misericórdia). Portanto, nenhuma dessas passagens apresenta a ignorância divina.

    Deus "se lembrando" e "se esquecendo" também são categorias judi ciais na Escritura, porque são categorias pactuais. Para Deus, "lembrar-se" de sua aliança significa simplesmente executar seus termos. Assim, Deus "lem brou-se" de Noé e das criaturas da terra, em Gênesis 8.1 (compare com 9.15,16; Êx 6.5). O "esquecimento" de Deus é seu adiamento do cumprimento dos termos da aliança (SI 9.18; 13.1) ou sua administração da maldição sobre os violadores da aliança (Jr 23.39).

    3. Quando Deus diz que algo "nunca passou pela minha mente" (Jr 7.31; 19.5; 32.35), ele não está confessando ignorância, mas descrevendo seus padrões para o comportamento humano (outro ponto judicial). Observe o contex to de Jeremias 7.31:

    Edificaram os altos de Tofete, que está no vale do filho de Hinom, para queimarem a seus filhos e a suas filhas, o que nunca ordenei, nem me passou pela mente.

    Os contextos de 19.15 e 32.35 são semelhantes. "Mente", aqui, é coração em hebraico, e, geralmente, na Escritura, focaliza as intenções (compare com 2Cr 7.11; Ne 7.5). Deus está dizendo aqui que o terrível sacrifício humano de Tofete é totalmente contrário aos seus santos padrões. Deus não era ignorante dessas práticas nem do perigo de que Israel seria tentado a pecar dessa forma. Ele explicitamente proibiu o sacrifício humano em Levítico 18.21 e em Deuteronômio 18.10. Assim, no sentido intelectual, essas práticas entraram em sua mente.

    4. Algumas passagens dizem que Deus muda de opinião em resposta às circunstâncias. Geralmente a Escritura diz que Deus "tem compaixão" de um juízo que havia planejado ou se arrepende de um curso de ação que havia tomado (Gn 6.6; 18.16-33; Êx 32.9-14; ISm 15.35; Jl 2.13,14; Am 7.1-6; Jn 4.1, 2). Paradoxalmente, contudo, essa mutabilidade divina é parte de seu pro pósito pactual imutável. Deus diz a Jeremias:

    No momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino para o arrancar, derrubar e destruir, se tal nação se converter da maldade contra a qual eu falei, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe. E, no momento em que eu falar acerca de uma nação ou reino, para o edificar e plantar, se ele fizer o que é mal perante mim e não der ouvidos à minha voz, então, me arrependerei do bem que houvera dito lhe faria (Jr 18.7-10).

    Esse princípio significa que muitas profecias são condicionais. A natureza de seu cumprimento depende das respostas humanas.

    Essa conclusão, em si mesma, é adequada aos teístas relacionais, mas a sua implicação é que Deus não pretende que essas profecias sejam revelações de seu propósito imutável. Ao contrário do que dizem os teístas relacionais, Deus tem um propósito imutável, descrito em Efésios 1.11 e em outros textos citados acima. Esse propósito é imutável, mas ele ordena mudança, inclusive a compaixão divina mencionada nas passagens acima. Deus decretou eternamente que muitos de seus propósitos seriam realizados por meios criados, inclusive a oração intercessória e as respostas das pessoas a profecias condicionais.

    5. Há algumas formas pelas quais Deus experimenta mudança quando en tra em um mundo temporal. A encarnação de Cristo é o exemplo mais claro, misteriosa como é. Jesus cresceu em sabedoria e estatura (Lc 2.52), muito embora ele fosse onisciente (Jo 2.24,25; 16.30; 21.17). Ele respondeu a even tos: alegrou-se nesse, irou-se naquele. Em um momento ele descansou, em outro ele se cansou. Ele nasceu em Belém e foi criado em Nazaré. Não foi somente a natureza humana de Jesus que sofreu todas essas mudanças, mas a Pessoa de Jesus, o Deus-homem.

    Em um sentido, Deus sempre experimenta mudanças desse tipo quando está presente no mundo. Quando Deus encontrou Moisés na sarça ardente, ele disse uma coisa e depois outra. Quando Deus age no mundo, na providência e na redenção, suas ações são temporalmente sucessivas. Ele faz uma coisa primeiro, e depois faz mais uma. Ele faz o que é apropriado em cada situação, respondendo a uma situação de uma forma e a outra de outra forma. Isso é, como os teístas relacionais enfatizam, um tipo de mudança.

    Aqueles que defendem a imutabilidade de Deus contra os teístas relacionais às vezes descrevem essas sucessões temporais como "antropomórficas". É claro que, em certo sentido, tudo o que nós dizemos sobre Deus é antropomórfico, porque nós usamos linguagem humana. Mas eu não gosto de pensar que o termo antropomórfico possa captar todo o envolvimento temporal de Deus na história. O termo antropomórfico sugere que Deus não agiu realmente de uma forma temporalmente sucessiva. Mas, na Escritura, Deus está realmente presente na história, fazendo uma coisa e depois outra.

    O erro do teísmo relacionai não está em alegar que as ações de Deus na história são temporais e responsivas, e nem em afirmar que no mundo temporal há um tipo de "toma-lá-dá-cá" entre Deus e suas criaturas. Os teístas relacionais erram ao negar que, em adição à imanência de Deus no mundo, ele também existe de forma transcendente, governando tudo no mundo por seu decreto abrangente.

    Assim, Deus é tanto plenamente consciente quanto responsivo às suas cria turas. Nós podemos ser gratos aos teístas relacionais por nos mostrarem como é persuasivo nas Escrituras o tema da responsividade divina, mas nossa conclusão não deve ser negar a soberaria e a presciência exaustiva de Deus. Em vez disso, devemos vê-lo como ainda mais soberano do que nós pensávamos antes: gover nando não somente de um reino transcendente atemporal, mas também como onipresente temporalmente, existindo em e com todos os eventos mutáveis da natureza e da história, usando o "toma-lá-dá-cá" da história para realizar seu propósito eterno imutável, governando imanentemente como o Senhor.