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    A Auto-Suficiência de Deus - A. W. Tozer


    Ensina-nos, ó Deus, que Tu não tens necessidade de nada. Se algo Te fosse necessário, isso seria a medida da Tua imperfeição; e como adoraríamos alguém imperfeito? Se nada é necessário a Ti, então também ninguém é neces­sário, e esse ninguém nos inclui. Tu nos buscaste, embora não tenhas necessidade de nós. Nós Te buscamos porque precisamos de Ti, pois em Ti vivemos, nos movemos e existimos.   Amém.
    "O Pai tem vida em Si mesmo" disse Jesus, e é caracte­rística de Seus ensinos que numa breve sentença Ele tenha pro­clamado uma verdade tão elevada, que transcende as maiores alturas do pensamento humano. Deus, disse Ele, é auto-sufi­ciente em Si mesmo, Ele é o que é, sendo esse o significado completo dessas palavras.
    O que quer que Deus seja, e tudo que é Deus, Ele o é em Si mesmo. Toda vida está em Deus e vem de Deus, seja a forma mais primitiva de vida consciente ou a vida altamente inteligente e autoconsciente dum serafim. Nenhuma criatura tem vida em si; toda a vida é dom de Deus.
    De modo inverso, a vida de Deus não é dom de outrem. Se houvesse outro do qual Deus pudesse receber o dom da vida, ou qualquer dom, esse outro é que seria de fato Deus. É uma maneira elementar mas certa de pensar em Deus como Aquele que tudo contém, que dá tudo que é dado, mas que não pode em Si mesmo receber nada que Ele mesmo não te­nha dado primeiro.
    Admitir que Deus necessite de algo seria admitir um Ser divino incompleto. A necessidade é uma palavra própria à criatura e não poderá ser empregada em relação ao Criador. Deus tem uma relação voluntária com tudo quanto criou, mas não tem qualquer relação necessária com coisa alguma fora de Si mesmo. O Seu interesse nas Suas criaturas surge do Seu prazer soberano, não porque estas criaturas possam suprir qualquer necessidade, nem aperfeiçoar Aquele que já é perfeito em Si mesmo.
    Novamente, temos que inverter o fluxo familiar dos nossos pensamentos e procurar entender aquilo que é único, que per­manece só como verdade neste caso e em nenhum outro. Os nossos hábitos comuns de pensamento permitem a existência da necessidade entre as coisas criadas. Nada está completo em si mesmo, mas requer algo fora de si a fim de existir. Todas as coisas que respiram precisam do ar, todo organismo neces­sita de alimento e água. Retirando o ar e a água do mundo toda a vida pereceria instantaneamente. Podemos citar como axioma que todo ser criado necessita de outra coisa criada a fim de permanecer vivo, e todas as coisas necessitam de Deus. Somente Deus não tem necessidade de nada.
    O rio desce com os seus tributários, mas onde está o afluente que possa engrandecer Aquele do qual vieram todas as coisas e a cuja plenitude infinita toda a criação deve sua existência?
    Mar insondável: toda a vida vem de Ti E Tua vida é a Tua bendita Unidade.
    Prederick W. Faber
    O problema da razão pela qual Deus criou o universo ainda perturba os intelectuais; mas se não pudermos saber por que, pelo menos poderemos saber que Ele não trouxe os mun­dos à existência a fim de satisfazer alguma carência em Si mes­mo, como o homem poderia construir uma casa para abrigar-se do frio do inverno ou plantar um campo de milho para se alimentar. A palavra "necessidade" é totalmente estranha a Deus.

    Sendo Deus um Ser supremo e soberano, segue-se que não pode ser elevado. Não há nada acima dEle, nada além dEle. Para a criatura, qualquer movimento em direção a Deus é ele­vação, e para longe dEle é queda. Deus mantém por Si mes­mo a Sua posição, e não precisa permissão de ninguém. Desde que não é possível elevar a Deus, assim também, é impossível degradá-lO. Está escrito que Ele sustenta todas as coisas por meio da palavra do Seu poder. Como então Ele pode ser ele­vado ou sustentado pelas próprias coisas que sustenta?
    Se de repente todo ser humano se tornasse cego, o sol ainda estaria brilhando de dia e as estrelas de noite, pois nada devem aos milhões de pessoas que deles se beneficiam. Assim, se todo homem sobre a terra se tornasse ateu, não afetaria a Deus de forma alguma. Ele é quem é, em Si mesmo, sem pre­cisar prestar contas a outro. Crer nEle não aumenta a Sua perfeição; duvidar dEle não O diminui em nada.
    O Deus Todo-Poderoso, porque é poderoso, não precisa de apoio. O retrato dum deus nervoso e subserviente, adulan­do os homens a fim de ganhar o seu favor não nos agrada de maneira nenhuma; porém, se examinarmos o conceito popular de Deus, chegaremos precisamente a essa conclusão. O cris­tianismo do século vinte classificou Deus como "necessitado da nossa caridade". Nossa opinião a nosso próprio respeito é tão presunçosa que achamos bem fácil, e mesmo agradável, acreditar que Deus precisa de nós. Mas a verdade é que Deus em nada engrandece pelo fato de existirmos, nem diminuiria se nós deixássemos de ser. Nossa existência é o resultado da determinação totalmente livre de Deus, e não a devemos ao nosso próprio merecimento nem à necessidade divina.
    O pensamento mais penoso para o nosso egoísmo natural é provavelmente reconhecer que Deus não precisa da nossa ajuda. Nós O representamos como um Pai ocupado, ansioso, um tanto frustrado, correndo para lá e para cá procurando quem O ajude a realizar o Seu plano benevolente de paz e sal­vação para o mundo. Mas, como disse muito bem Lady Julian: "Vi verdadeiramente que Deus faz tudo, por pouco que seja".

    O Deus que opera todas as coisas certamente não precisa de ajuda nem de ajudadores.
    Um número excessivo de apelos missionários se baseia nessa suposta frustração do Deus Todo-Poderoso. Um prega­dor eficiente pode incitar os seus ouvintes a terem pena, não só dos pagãos, mas também do Deus que por tanto tempo tem procurado salvá-los e não o consegue por falta de apoio. Temo que milhares de jovens entrem no serviço cristão motivados apenas pela vontade de tirar Deus da situação embaraçosa em que o Seu amor o colocou, e da qual suas habilidades limita­das parecem incapazes de libertá-lo. Some-se a isso um certo grau de idealismo recomendável e uma boa dose de compai­xão pelos menos privilegiados e teremos a verdadeira motiva­ção de muitas das atividades cristãs hoje em dia.
    Mais uma vez, Deus não precisa de defensores. Ele é o Eterno Não-Defendido. As Escrituras usam muitos termos mi­litares a fim de comunicar-se conosco num idioma que possa­mos compreender; mas certamente não foi planejado que pen­sássemos no trono da Majestade como estando sitiado, com Miguel e seus exércitos ou outros seres celestiais lutando em sua defesa, para que não seja usurpado. Tal idéia seria com­preender erradamente tudo que a Bíblia nos ensina a respeito de Deus. Nem o judaísmo nem o cristianismo poderiam apro­var tais conceitos pueris. Um Deus que precisa ser defendido, só poderia nos ajudar quando estivesse sendo ajudado. Só po­deríamos contar com Ele se ganhasse a batalha cósmica entre o bem e o mal. Um Deus como esse não poderia ter o respeito de homens inteligentes; só poderia causar pena.
    Temos de pensar dignamente com relação a Deus, se qui­sermos estar certos. Torna-se imperativo, num sentido moral, purificar nossas mentes de quaisquer conceitos ignóbeis sobre Deus, e permitir que Ele seja em nossas mentes o Deus que é no Seu Universo. A religião crista abrange Deus e o homem, mas o seu enfoque é Deus e não o homem. A importância do homem está em ter sido criado à imagem de Deus; em si mesmo ele não é nada. Os salmistas e profetas das Escrituras se referem com triste desdém ao homem fraco cujo fôlego está em suas narinas, que cresce como a relva da manhã e seca, sendo cortado antes do pôr-do-sol. Que Deus existe em Si mes­mo e que o homem existe para a glória de Deus é o ensina­mento enfático da Bíblia. A grande honra de Deus está primei­ramente no céu, como ainda há de estar na terra.
    Com estes fundamentos começamos a compreender por que as Sagradas Escrituras dizem tanto a respeito da posição vital da fé e por que razão a incredulidade é tachada de pe­cado mortal. Entre todos os seres criados, nenhum ousa con­fiar em si mesmo. Só Deus confia em Si; todos os outros seres têm de confiar nEle. A incredulidade é a perversão da fé, pois não põe a sua confiança no Deus vivo, mas nos homens mortais. O incrédulo nega a auto-suficiência de Deus e usurpa atributos que não lhe pertencem. Esse duplo pecado desonra a Deus e finalmente destrói a alma do homem.
    Em Seu amor e Sua piedade Deus veio a nós como Cristo. Esta tem sido a posição da igreja desde o tempo dos apósto­los. Ela se firma na doutrina da encarnação do Filho Eterno. Porém, mais recentemente, essa crença veio a ser interpretada de forma diferente e inferior ao que significava para a Igreja primitiva. O Homem Jesus tendo aparecido na carne tornou-se igual à Divindade, e todas as suas fraquezas e limitações hu­manas são assim atribuídas à própria Divindade. A verdade porém, é que o Homem que andou entre nós não foi uma de­monstração da Divindade revelada, mas da perfeita humani­dade. A terrível majestade de Deus foi misericordiosamente oculta no suave invólucro da natureza humana, para a nossa proteção.
    "Desce, adverte ao povo que não traspasse o termo até ao Senhor para vê-lo, a fim de muitos deles não perecerem", disse Deus a Moisés, e mais tarde: "Não me poderás ver a face, porquanto homem nenhum verá a minha face, e viverá".
    Os cristãos de hoje parecem conhecer Cristo apenas na carne. Procuram ter comunhão com Ele, retirando dEIe a Sua ardente santidade e majestade inacessível, os mesmos atributos que ocultou enquanto na terra, mas assumiu totalmente na ple­nitude da glória, em Sua ascensão à destra do Pai. O Cristo do cristianismo popular tem um sorriso fraco e um halo. Tor­nou-se "Alguém-lá-em-cima" que gosta das pessoas, pelo me­nos de algumas pessoas, e estas são gratas, mas não estão muito impressionadas. Se precisam dEle, Ele também tem necessidade delas.
    Não vamos supor que a verdade da auto-suficiência divi­na possa paralisar a atividade cristã. Pelo contrário, ela esti­mulará todo esforço sagrado. Esta verdade, embora seja uma repreensão necessária à autoconfiança humana, quando vista na sua perspectiva bíblica, tirará de nossas mentes o peso exaus­tivo da mortalidade e nos encorajará a tomar o suave jugo de Cristo e nos entregarmos à tarefa inspirada pelo Espírito para a honra de Deus e para o bem da humanidade. A mensagem abençoada é que o Deus que não tem necessidade de ninguém, em soberana condescendência Se curvou, para trabalhar atra­vés, dentro, e ao lado de Seus filhos obedientes.
    Se isso tudo parece contraditório — Amém, assim seja. Os diversos elementos da verdade permanecem em perpétua antítese, por vezes exigindo que creiamos em coisas aparente­mente opostas, enquanto aguardamos o dia em que conhece­remos como também somos conhecidos. A verdade que ora parece contradizer a si mesma se elevará então em unidade resplendente e veremos que não houve jamais conflito nessa verdade, mas ele ocorreu apenas em nossas mentes debilitadas pelo pecado.
    Até aquele dia, a nossa satisfação íntima estará na obe­diência amorosa aos mandamentos de Cristo e às admoestações inspiradas dos Seus apóstolos. "Deus é quem efetua em vós." Ele não precisa de ninguém, mas quando a fé se faz pre­sente Ele opera através de qualquer um. Há nesta sentença duas afirmativas, e uma vida espiritual saudável exige que aceite­mos ambas. Durante toda uma geração a primeira afirmativa tem estado num eclipse quase total, e isto prejudicou profun­damente nossa espiritualidade.
    Fonte do bem, toda bênção vem
    De Ti, cuja plenitude não tem fim;
    O que podes almejar, além de Ti mesmo?
    Porém, auto-suficiente como és,
    Tu desejas meu desprezível coração;
    Ê o que exiges, somente isto.
    JOHANN  SCHEFFLER