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    A NATUREZA DO VERDADEIRO ARREPENDIMENTO - Nathaniel Vincent (1669)



     Eu encontro o apóstolo dando uma notável e  completa definição em Atos 26:18, onde ele chama isto de uma volta { das trevas para a luz e do poder de satanás para Deus. Daí concluirmos que a conversão baseia-se em quatro pontos:


    a. Em voltar-se das trevas;
    b. Em voltar-se para a luz;
    c. Em voltar-se do poder de satanás;
    d. Em voltar-se para Deus.

    I.    A conversão implica em voltar-se das trevas. Como as trevas estavam sobre a face do abismo até que Deus dissesse: "Haja luz " (Gên. 1:2) assim verdadeiramente as trevas cobrem a alma do homem natural até que do alto ele seja iluminado. Os crentes são libertos do poder das trevas quando são trasladados para o reino do Filho. (Col. 1:13). Isto mostra que até um certo ponto eles estavam em trevas tanto quanto os outros. E se diz que estas trevas têm poder - poder para segurar, poder para cegar e poder para arruinar, de modo que há uma necessidade de ser liberto delas. Agora, há vários tipos de trevas dos quais eles se tornam livres.

    A. Os convertidos são tirados das trevas da ignorância. Eles não estão mais satisfeitos em desconhecerem o caminho da salvação, mas se tornam inquisitivos quanto ao que devem fazer para serem salvos. Eles são informados sobre a doutrina de Cristo, e são levados a entender o que significa crer e arrepender-se. Eles sabem que o pecado deve ser lamentado como o pior de todos os males, e que Deus é o Sumo Bem, e que Ele "... amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. " (João 3:16). Eles são levados a saber que Cristo deve ser recebido por fé, e que não há salvação em nenhum outro, e é vão esperar qualquer coisa dEle como Salvador a não ser que haja uma disposição para obedecê-lO como Senhor. Estas e outras verdades semelhantes não mais lhes são ocultas. Eles estão cientes agora do mal e do perigo da ignorância. Portanto, eles desejam ardentemente ser libertos da ignorância, e prosseguir em conhecer ao Senhor.
    B. Os convertidos são tirados das trevas da incredulidade. O Espírito faz uma obra de persuasão em seus corações a respeito das verdades estabelecidas, de tudo o que Deus (em revelado em Sua Palavra. Todavia, eles não devem atrever se a continuar a fazer Deus mentiroso, deixando de acreditar naquilo que Ele registrou. Eles crêem, admiram e reconhecem a sabedoria do mistério de Deus do Pai e de Cristo. (Col. 2:2). Até agora, sua incredulidade ocultou deles o evangelho eosmantevena condição de perdidos. Eles não entendiam o mistério da Palavra. Eles não consideravam os tesouros da sabedori a e da graça, os quais são agora revelados. Nem ficaram amedrontados com as ameaças dos terrores que pesam contra os ímpios, terrores esses dos quais a Palavra está cheia. No entanto agora o véu é retirado e eles concordam e se comovem com o que o evangelho lhes fala. Eles crêem que Deus está em Cristo reconciliando o mundo conSigo mesmo, não imputando-lhes suas transgressões, e que "sendo justifi­cados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. " (Rom. 5:9). Eles crêem que o pecado é mortal e que o mundo é um engano, que a felicidade verdadeira e eterna é encontrada só em Deus. Portanto eles deixam o que é inconsistente para abraçar aquilo que é substancial.
    C. Os convertidos são tirados das trevas do preconceito. O preconceito levanta um estranho tipo de neblina diante dos olhos, a qual impede que a luz da verdade brilhe na mente. O preconceito dos judeus contra Cristo foi o maior causador da cegueira deles, o principal impedimento para que abraçassem a fé. Satanás esforça-se para encher os ímpios com este preconceito, a fim de incentivá-los, porque através disso seu reino é sustentado. Às vezes os pecadores são preconceituosos contra a santidade como se ela fosse uma desgraça, ao passo que, sendo ela a glória da natureza divina, certamente é a maior honra e perfeição de que a criatura racional é capaz de experimentar. Às vezes a santidade é vista como desnecessária, entretanto as Escrituras afirmam que ninguém verá a Deus sem santidade. Às vezes o coração carnal se levanta contra a santidade pois imagina que ela não é consistente com nenhum dos seus deleites e prazeres, porém o que realmente acontece ao sermos convertidos a Deus é que não perdemos a nossa alegria, posto que ela é sublimada. O reino de Deus não é somente justiça, mas também gozo paz e alegria no Espírito Santo. (Rom. 14:17). Antes a alegria era pobre, inferior, irracional, e impura, sendo misturada com a relutância muito secreta da consciência e apreensões do coração. Agora, na conversão, a alegria é pura, angelical, satisfatória, e zelosa daqueles prazeres que serão para toda a eternidade. (Sal. 16).
    Este preconceito irracional não é somente contra os caminhos da santidade e sim também contra os que anunciam estes caminhos. Havia um preconceito contra Elias, como se ele fosse o perturbador de Israel; contra Jeremias, como se fosse infiel à nação e amigo secreto dos caldeus; contra os apóstolos, como se tivessem sido intoleráveis perturbadores que viraram o mundo de cabeça para baixo. E na verdade o tesouro, na maioria das vezes, é negligenciado, apesar de seu inestimável valor, por causa do vaso no qual é derramado. Contudo, quando alguém é convertido, a neblina do preconceito é imediatamen­te dissipada. Então a rigorosa doutrina derrotará aquilo que antes estava causando náusea e fazendo o coração rebelar-se contra ela. Então o servo de Cristo será estimado e obedecido, aquele que antes era visto como impuro e a escória do mundo. (I Cor. 4:13).
    D. Os convertidos são tirados das obras das trevas. Estas obras são rejeitadas. (Rom. 13:12). Não é permitida nenhuma presunção de pecado. Eles percebem quão infrutíferos foram seus antigos caminhos e portanto envergonham-se deles. (Rom. 6:21). Seguramente no passado entraram no pecado porque não sabiam para onde estavam indo, mas agora percebem a tendência dessas obras das trevas, as quais conduzem ao negror das trevas eternas. E então são libertos do pecado, ou seja, libertos da servidão do pecado, e se tornam servos da justiça. O pecado pode apelar duramente contra essa rejeição, porém todos os seus apelos são inócuos.
    O pecado sedutor, conseqüentemente, pleiteia da seguinte maneira: "Eu o levantei de um nível miserável para o mais alto grau. Eu enchi sua carteira e supri sua mesa. Por minha causa você conquistou um status promissor, pois de outra forma você não seria muito diferente de um mendigo. E como eu posso ser rejeitado, tendo sido de tão grande benefício e tendo trazido tantas vantagens?"
    Entretanto, o convertido tem o suficiente para responder a tal pleito. Qualquer que tenha sido seu ganho ilícito ele deve restituir. Se ele tivesse confiado em Deus e agido corretamente, ele teria lucrado muito mais. O mamom da injustiça é acompanhado de uma maldição, e durante todo o tempo que ele prosperou de maneira ilícita, esteve destituído das verdadeiras riquezas. É espantoso que por causa de tal ganho ilícito ele não tenha perdido sua alma há muito tempo. Agora, portanto, está determinantemente decidido contra o ganho ilícito, caso que posteriormente e sem aviso prévio, ele venha a descobrir que Deus, Cristo e a salvação de sua alma não estão mais ao seu alcance.
    O pecado sedutor não está sem argumentos para ser tratado com carinho: "Eu tenho dado prazer à sua carne e alegria ao seu coração. Eu tenho feito com que os dias e as noites passem sem ser sentidos. Eu tenho satisfeito seus desejos e feito seus lábios cantarem de alegria. Tenho entorpecido e adormecido a fúria chamada "consciência" quando ela começou a instigar e a torturar você. Tenho afugentado suas preocupações e feito você esquecer suas tristezas. Houve tempo quando os seus pensamentos a meu respeito eram deleitosos e eu era abraçado como algo querido. E por que deveria eu agora ser banido e morto como se fosse um inimigo? Asafliçõesda alma e quebrantamento de coração deveriam ser preferidos ao invés da doçura que eu estava acostumado a oferecer a você?"
    Mas os ouvidos do convertido são surdos para tão sedutora melo­dia. Uma palavra é suficiente para derrotá-la e responder a tudo isso: "...usufruir os prazeres transitórios do pecado " (Heb. 11:25), porém as dores do inferno (as quais certamente serão inevitáveis se não houver conversão) jamais terão um fim nem mesmo serão no mínimo abrandadas. O homem rico que tinha vivido prazerosamente e em abundância todos os dias de sua vida, quando foi lançado nas chamas implorou por uma gota de água e até isso lhe foi negado. Portanto, as obras das trevas são rejeitadas pelos convertidos. Os prazeres dessas obras são nada comparados à dor, nem o ganho comparado à perda que rapidamente se seguirá.



    2. Esta conversão implica em se voltar das trevas, e também em voltar-se para a luz. "Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor, andai como filhos da luz.". (Ef.5:8). Vejam também II Cor. 4:6 - "...que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhe­cimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo. ". Esta luz tem uma tríplice propriedade: revelar, direcionar e operar.
    A. Esta luz revela. O apostolo nos diz: "a luz tudo manifesta ". O convertido enxerga o que nunca viu antes. Pode ser que haja muitas rãs, serpentes e outras repugnantes e odiosas criaturas em um calabou­ço, mas enquanto a luz não brilha ali estes não são percebidos. O romper da luz os revela. E assim muitos sentimentos impuros e ofensivos têm sua morada no coração do homem, porém eles não são realmente reconhecidos, nem são os tais motivo de aborrecimento, até que a luz os tornem manifestos. O convertido vê seu pecado, sua vergonha. Ele é ciente das pragas de seu próprio coração e a absoluta necessidade de cura. Semelhantemente o seu verdadeiro interesse lhe é revelado, ou seja, buscar primeiramente o reino de Deus e Sua justiça, guardar a sua alma (a qual é muito mais valiosa do que o mundo) e ter em mente a única coisa necessária, a boa parte que nunca lhe será tirada.
    B. Esta luz direciona. Ela guia aqueles que se voltam para o caminho da paz e da verdade. A lâmpada da Palavra (mesclada ao Espírito que a ensina) mostra quais são os perversos e tortuosos caminhos, a fim de que possam ser esquivados e evitados. Ela também direciona para aqueles caminhos que são agradáveis a Deus e agradá­veis em si mesmos, e são, além disso, tão extremamente seguros que ninguém que caminhou por eles tenha jamais perdido o céu. Somos levados a crer e a obedecer, e quando fé e obediência se juntam, o resultado desta união certamente será a glória, a honra e a imortalidade.
    C. Essa luz opera de uma maneira poderosa. Ela é tanto luz quanto calor. Os convertidos se apercebem do mal, da loucura do pecado, portanto, agora eles o vêem através de outra luz e seus corações fervem de indignação contra o mesmo. Eles vêem o pecado do modo como são profundamente atingidos. Eles o lamentam e o abominam. Antes foram informados da misericórdia e onipotência e outras perfeições de Deus, todavia agora eles têm uma visão de Sua glória na face de Cristo que suscita o amor ardente, e tal amor os leva à ação. Quando Calebe viu a terra da promessa ele desejou muito entrar e possuí-la. (Num. 13:30). E verdadeiramente quando a luz revelar a Canaã celestial e ensinar aos convertidos como chegar lá, oh, quanta vigilância, quanta oração, quanta resistência, quanto empenho será empregado!


    3. Esta conversão implica em ser libertado do poder de satanás. Ele é o espírito que opera e governa nos filhos da desobediência (Ef.. 2:2) e tem domínio sobre eles até que sejam convertidos. Mas então ele é expulso e suas fortalezas são derrubadas. Que maravilha! Consideran­do o ódio do diabo, seu poder, sua sutileza, que misericórdia é essa que tenhamos em mãos as cordas com que nos manteve cativos ao seu bel prazer! Três coisas são compreendidas ao sermos libertos do poder de satanás:
    A. Aqueles que são convertidos são libertados do domínio de satanás. Eles têm sabedoria e graça para resistir à sua autoridade usurpada. A promessa feita a eles é que não estão mais debaixo da lei e sim debaixo da graça, e que o pecado não terá domínio sobre eles. (Rom. 6:14). Isto implica necessariamente que o domínio de satanás será destruído, pois é pelo poder do pecado que ele os mantém presos. O laço é agora rompido e a alma escapa como um pássaro liberto da armadilha do caçador. Como é escravo de satanás o pecador não convertido! Se o diabo lhe diz para ir, ele vai; não, ele corre, ainda que seja paraasua própria ruína. O diabo só precisa pedir para ter. Ele pode exigir o tempo e os membros do pecador, e mesmo sua alma - e os terá. O convertido, porém, corre para perto de Deus, e é tão fortalecido pela Sua graça que, ao invés de ser comandado por satanás, ele o compele a fugir.
    B. Aqueles que são convertidos se mantêm à distância de satanás. Eles são conscientes de quão indignas e injuriosas são as artimanhas de satanás, tanto para Deus quanto para suas próprias almas. E existe uma obra melhor do que a dele, a saber, a obra do Senhor, na qual eles labutam e, por mais que se empenhem, ainda deixam incompleta.
    C. As armadilhas de satanás se tornam desprezíveis para todos aqueles que são convertidos. E é através delas que satanás é tão poderoso. O deus deste mundo usa grandemente o mundo para encantar e enlaçar os filhos dos homens. Ele magnifica excessivamen­te os deleites da sensualidade, alimentação requintada, roupas caríssi­mas, crédito entre os homens e recreações agradáveis. Ele insinua: "Quão feliz estas coisas lhes farão!" Ele fala aos pecadores do valor da prata e do ouro, e freqüentemente, através da visão incendiada em seus olhos, se esforça para manter seus corações com um ardente desejo para aquilo que é belo. No entanto o convertido, pelos olhos da fé, olha para coisas mais elevadas que essas. Ele é levado a ver a vaidade das coisas materiais. Experimentou o peso da ira divina, e agora o mundo lhe parece uma bolha vazia, uma coisa insignificante. Sua consciência foi ferida, e uma vez ferida, ai! Nenhuma das coisas que o mundo pudesse dar-lhe, absolutamente nenhuma, poderia curá-lo.
    O convertido é levado a olhar para as coisas do alto e assim pode perceber as riquezas de duração infindável, os prazeres mais perma­nentes do que aqueles de que o mundo se gaba. Dessa forma ele não se deixa levar pelas coisas aparentes, e sim por aquelas que não são aparentes. Embora ele esteja no mundo, enxerga além dele. Moisés, a despeito da recompensa do prêmio, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, desprezou os prazeres do pecado e todos os tesouros que estavam no Egito.


    4. Esta conversão, visto que implica num desprender-se do poder de satanás, implica também num voltar-se para Deus. "Torne para mim, diz o Senhor dos Exércitos, e eu tornarei para vós" (Zac. 1:3). Assim como na corte do rei, muitos dos que vão para lá ocupam-se em observar as curiosas tapeçarias e quadros que ali estão, porém, o sábio estadista não se ocupa de tais coisas. Seu negócio é com o próprio rei. Da mesma maneira, enquanto a maioria da criação está sendo levada inteiramente a observar, admirar, a seguir isto ou aquilo, e outras vaidades, o convertido (que se mostra ser verdadeiramente sábio) se aproxima de Deus que fez todas as coisas, e que pode torná-lo mais feliz do que tudo isso poderia fazer.
    Ora, quando o pecador retorna para Deus, ele O vê sob três aspectos: como Senhor, como Pai e como seu maior objetivo.
    A. O convertido vê Deus como Senhor. Reconhece Sua soberania e submete-se a Ele e ao Seu cetro. Outros senhores tiveram realmente em tempos passados domínio sobre ele (Is. 26:13), mas agora sua resolução é fixa e peremptória em não possuir nenhum outro Senhor senão somente Deus. Sua vontade se curva em obediência à vontade de Deus. Quando sua inclinação natural em direção a qualquer coisa é muito veemente, se o convertido toma conhecimento de que tal inclinação deixará Deus muito descontente, isso é suficiente para pôr um fim nos seus desejos. Ele toma os testemunhos do Senhor como norma, a fim de regular sua conduta, e quando ouve que Deus lhe tem ordenado que mantenha Seus preceitos diligentemente, seu coração emite um eco em resposta àquele comando: "Tu ordenaste os teus mandamentos, para que diligentemente os observássemos. Oxalá os meus caminhos fossem dirigidos de maneira a poder eu observar os teus estatutos." (Sal. 119:4-5). Ele não mais se atreve presunçosa­mente a cometer o mal que a Palavra proíbe, nem omitir o bem que a Palavra ordena.
    Imperfeições e enfermidades existem e existirão. "Em muitas coisas, o ofendemos muito " disse o apóstolo, mas este mal que está presente com o convertido é um peso para ele. A lei do Senhor é aprovada e aceita por ele. Há um deleite naquilo que é santo, justo e bom. O convertido (o qual é diferente dos hipócritas) está muito longe de querer que a lei fosse menos santa, a fim de que tenha liberdade para pecar, mas ele deseja que seu coração e sua vida sejam mais santos, e mais e mais estejam em conformidade com a lei.
    B. O convertido vê Deus como Pai, ou como desejando que Ele Se torne seu Pai em Jesus Cristo. Isso foi dito na verdade por um erudito, "Não há nenhum outro Pai como Deus, nenhum outro há tão pleno de afeições paternais." Ele tem reservas suficientes para suprir todas as necessidades dos filhos pródigos que regressam, e Ele está muito mais desejoso de prover esse suprimento para aqueles que sentem sua necessidade e o buscam do que os pais terrenos possam querer alimentar seus filhos famintos. (Mat. 7:11). Por isso vale a pena retornar. Aquelas parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do filho pródigo foram transmitidas para esse fim: para encorajar os pecadores e voltarem para casa, para Deus. (Lucas, capítulo 15). Aquele homem se regozijou quando encontrou sua ovelha perdida, também aquela mulher quando encontrou sua moeda de prata. Aquele pai amoroso, cujo filho voltou ao lar por necessidade, depois de estar prestes a perecer num país distante - e embora tenha voltado ao lar em trapos, tendo gasto todas as suas economias numa vida desenfreada -eu digo que aquele pai amoroso, tão logo que viu seu filho, correu para ele, e tendo compaixão dele o abraçou, o beijou, o vestiu, o adornou e fez uma festa para ele. Como ficou feliz porque o filho perdido foi encontrado, e o que estava morto reviveu!
    Podemos concluir que Deus está desejoso de receber todos aqueles que, estando cônscios como Jó: "pequei, e perverti o direito, o que de nada me aproveitou " (Jó 33:27), se voltam a Ele de todo o coração. E verdade que os pecados do convertido junto com seu coração incrédulo enchem-no muitas vezes de dúvidas e temores. Ele se lembra de Deus e fica perturbado porque Lhe tem provocado tão amargamen­te. Ele fica temeroso de chamar-Lhe de "Pai" e tem muitas dúvidas de que será recebido. Mas novamente a fé e a esperança são encorajadas por promessas tais como as que se lê em II Cor. 6:17-18: "nãotoqueis em coisas impuras; e eu vos receberei, serei vosso Pai, e vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-poderoso. "
    C. O convertido vê Deus como seu objetivo maior. Portanto deseja que Deus possa ser glorificado, e possa ser desfrutado pelo seu retorno a Ele. O convertido é conscientizado de que enquanto incrédulo ele viveu para a desonra de Quem lhe deu vida, e em cuja mão está o seu fôlego de vida. Agora, entretanto, ele deseja ardentemente andar de maneira digna do Senhor, sendo Lhe em tudo agradável, sendo frutífero em todos os trabalhos que são para o Seu louvor. Antes ele só pensava em si mesmo, em suas próprias coisas. Não tinha alvos elevados além de satisfazer as inclinações mundanas da carne com o que sua mente carnal e corrupta julgava conveniente. Ele não se preocupava com o quanto o Senhor estava magoado e entristecido. No entanto, agora ele tem outra mente. Ele sustenta os mesmos desígnios dos anjos, os mesmos propósitos que Cristo teve, a saber, honrar e agradar ao Deus da glória. E não somente cumpre seu propósito em suas ações espirituais, mas também em suas ações naturais, civis e recreativas, as quais, estando ele renovado, se tornam espiritualizadas.
    Ele leva a sério o que o apóstolo diz em I Cor. 10:31: "Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. " E agora ele vive como nova criatura, como um filho. Antes não vivia nem como um nem como outro, pois vivia somente para si.
    Por assim glorificar a Deus, o convertido toma o rumo certo para alegrá-lO. Ele vê Deus como a melhor porção, e portanto se lança sobre Ele. Agora esta é sua linguagem: "Deixem os homens mundanos participarem das coisas do mundo que lhes agradam. Deixem que corram atrás do vento. Deixem que se envergonhem e se aborreçam com aquilo que, uma vez alcançado, resultará somente em mais aborrecimentos. Minha alma busca a Deus. Somente Ele merece minha busca. Somente Ele, quando encontrado, pode preencher-me totalmente."
    O convertido não se satisfará com apenas um pouco de Deus. Riquezas não poderão fazê-lo. Reputação, prazeres sensuais tampouco poderão fazê-lo. Nem mesmo as ordenanças por si mesmas, pois são iguais a corações vazios e cisternas rachadas, a menos que venham acompanhadas do prazer da comunhão com Deus. O convertido ora para Deus, ele ouve a Deus, ele jejua para Deus, ele participa da Ceia do Senhor para Deus. Para ele a terra é como um inferno se Deus estiver ausente, e avalia que o céu não seria o céu se Deus não estivesse sempre presente. Assim, tenho mostrado até aqui em que consiste a conversão, ou seja, consiste em voltar-se das trevas para a luz, e do poder de satanás para o poder de Deus.
    Devo acrescentar uma palavra ou duas para esclarecer através de quem o pecador deve voltar-se para Deus, se ele realmente deseja ser recebido. E a verdade é esta, que é somente através de Cristo. O apóstolo claramente afirma: "porque por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito " (Ef. 2:18). E nosso Senhor em termos expressos, diz em João 14:6: "Eu sou o caminho, a verdade, e a vida, ninguém vem ao Pai a não ser por mim." É impossível que criaturas tão culpadas e corruptas como nós, por causa do pecado, possam ser aceitas diante de um Deus justo e santo, sem terem um Mediador. Portanto segue-se que existe uma necessidade de olharmos para Jesus para podermos usar a frase do apóstolo, "em quem Deus está recon­ciliando consigo o mundo " (II Cor. 5:19). Doutro modo não devemos nos atrever a aproximarmo-nos dEle, mas sim fugirmos com medo de sermos consumidos (como de fato merecemos).

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