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    A INCOERÊNCIA DO ARBÍTRIO NATURAL DO HOMEM - JOÃO CALVINO



    Com veracidade maior Temístio, o qual ensina que o intelecto se engana mui raramente na definição universal, ou, seja, na expressão da essência da coisa; que, entretanto, é ilusória aparência quando vai além, isto é, quando desce à aplicação particular. Ninguém haverá que não afirme que o homicídio é mau, se a indagação é de cunho geral. Aquele, porém, que maquina a morte de um inimigo, delibera-a como se tratasse de uma boa coisa. O adúltero condenará o adultério em geral; entretanto o lisonjeará no seu em particular.


    Na verdade, nisto está a falta de conhecimento: que o homem se esquece dessa regra que havia há pouco estabelecido como princípio universal, quando chega a um caso particular. Acerca desta matéria, disserta Agostinho magistralmente na exposição do primeiro versículo do Salmo 57. Não obstante, este princípio de Temístio de fato não é absoluto, pois a torpeza da depravação às vezes de tal forma insiste com a consciência que, não se ludibriando sob uma falsa aparência de bem, ao contrário, cônscia e deliberadamente, o homem ao mal se arroja. Esta convicção inspirou estas palavras: “Vejo as coisas melhores e as aprovo; porém sigo as piores.”


    À vista disso, Aristóteles parece-me haver feito distinção mui judiciosa entre incontinência e intemperança. Diz ele que onde reina a incontinência [avkrasi,a – akrasía], mercê da disposição perturbada ou pa,qoj [páth(s – paixão], está bloqueado à mente o conhecimento particular, de sorte que não se aperceba do mal em seu agir incorreto, mal que geralmente percebe em casos similares nas demais pessoas; e quando a perturbação arrefeceu, de pronto recorre o arrependimento. A intemperança [avkolasi,an – ak(lasían], porém, não se extingue ou quebranta pela consciência do pecado; ao contrário, persiste obstinadamente na escolha deliberada do mal.

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