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    O MAL DENTRO DE NÓS – MARTINHO LUTERO



    AS 14 CONSOLAÇÕES



    Lutero escreveu as 14 consolações em 1519 – Ao retornar da eleição de Calos V (28.06.1519), Frederico, o Sábio, então com 56 anos de idade, adoeceu gravemente em sua residência, tendo febre, podagra e cólicas. Muitos pensavam que viria a morrer – O capelão da corte, Jorge Espaladino, pediu então a Lutero que redigisse um escrito de consolo para o príncipe-eleitor.
    Querendo definir a consolação dos cristãos, o apóstolo Paulo diz em Rm 15.4: “Irmãos, tudo o que foi escrito o foi para nosso ensino, para que, por meio da paciência e da consolação das Escrituras, tenhamos esperança”. As Escrituras possuem uma forma dupla de consolação, ao nos oferecerem duas imagens do assunto, misturado numa salubérrima combinação, tanto as coisas más quanto as boas.
    Por isso o Espírito Santo se empenha com todo o esforço para afastar a pessoa de ocupar sua mente com coisas e do afeto a elas. Assim que alcançou isso, as coisas, quaisquer que sejam, se tornam indiferentes. Como, porém, este afastamento é feito principalmente pela Palavra, pela qual afasta o pensamento do assunto que, de momento,nos afeta, e o dirige a algo ausente ou que não nos afeta no momento, com toda a razão teremos consolação apenas pela Escritura, que no dia mau nos convoca a contemplar as coisas boas, que sejam presentes, quer futuras, e, do mesmo modo, no dia bom nos convoca a contemplar as coisas más. Para entendermos melhor estas duas figuras e imagens, atribuiremos a cada uma delas sete partes.


    A PRIMEIRA IMAGEM conterá os males a serem considerados, (os quais sejam:) Primeiro, os males dentro de nós; o segundo, na nossa frente; terceiro, atrás de nós; quarto, à nossa esquerda; quinto, à nossa direita; sexto, abaixo de nós; sétimo, acima de nós.



    O MAL DENTRO DE NÓS



    ISTO É CERTO e verdadeiro, quer a pessoa creia, quer não: não pode haver na pessoa sofrimento tão grande que seja o pior dos males que estão dentro dela.Os males que há dentro dela são muito mais numerosos e maiores do que ela sente. Porque se sentisse seu mal, sentiria o inferno, pois ela tem o inferno dentro de si. Tu perguntas: “Como”? O profeta diz: “Toda pessoa é mentirosa” (Sl 116.11) e: “Toda pessoa vivente é pura vaidade”. (Sl 39.5).
    Ser mentiroso é vão, porém é ser distituído de verdade e realidade. Ora, estar sem verdade e realidade é estar sem Deus e nada ser. Isso, porém, significa estar no inferno e ser condenado. Por isso, quando Deus nos castiga em misericórdia, mostra e impõe-nos os males mais leves, sabendo que, se levasse o ser humano ao conhecimento de seu mal, este pereceria no mesmo momento. No entanto, a alguns permitiu uma prova disso, a respeito dos quais se diz: “Ele leva ao inferno e tira dele” (1Sm 2.6).
    Por esta razão falam a verdade os que chamam os sofrimentos corporais de monitórias do mal dentro de nós. Em Hebreus 12.6 o apóstolo os chama de paternas disciplinas de Deus, dizendo: “Ele castiga a todo filho que recebe”. Isso ele faz para, por meio destes castigos e pequenos males, expulsar estes grandes males que então não precisaremos sentir, conforme se lê em Pv 22.15: “A tolice está instalada no coração da criança, mas a vara da disciplina a afugentará”. Não é verdade que os pais piedosos sofrem mais com os filhos quando são ladrões ou malvados do que quando estão feridos? Sim, eles próprios os surram e ferem par não poderem ser maus.
    Que é, pois, o que impede que este verdadeiro mal seja sentido? Sem dúvida, como disse, porque Deus dispôs as coisas de tal maneira que o ser humano não perecesse ao enxergar seus males mais íntimos. Ele os esconde, querendo que sejam reconhecidos só pela fé, enquanto as aponta pelo mal perceptível. Por isso, ‘no dia mau lembre-se das coisas boas” (Eclo 11.27).
    Vê que grande bem é não conhecer todo o mal. Lembra-te desse bem, e o mal perceptível torturará menos. Por outra, no dia das coisas boas lembra-te das coisas más, isso é, enquanto não sentes os verdadeiros males, sê grato nesta ausência de dor e lembra-te dos verdadeiros males, e acontecerá então que sentirás menos o mal perceptível. Assim, evidencia-se que, nesta vida, a ausência de dor na pessoa sempre é maior do que a dor, não porque não estivesse presente todo o mal, mas porque, pela bondade de Deus, que o esconde, a pessoa não tem consciência dele e não o sente.
    Por isso vemos como aqueles aos quais é dado conhecer seu verdadeiro mal procedem com atrocidade contra si próprios, de sorte que consideram nada tudo que possam sofrer em toda a vida, contanto que não sintam seu próprio inferno. Assim procederia qualquer um se sentisse e cresse firmemente em seu mal interior, espontaneamente chamaria os males externos, diverti-se-ia com eles e jamais estaria mais triste do que quando não sofresse males, como fizeram alguns santos, conforme bem sabemos, por exemplo Davi no Salmo 6.
    A primeira visão da consolação e portanto, dizer a si mesmo: Ó ser humana, por enquanto ainda não sentes o teu mal. Alegra-te e sê grato porque não és obrigado a senti-lo”. Assim, pela comparação com o máximo, o mal pequeno se torna leve. É isto que outros dizem: “Mereci algo bem pior, até mesmo o inferno” – algo tão fácil de dizer, mas tão insuportável de sentir.
    Por mais, porém, que este mal seja latente, ainda assim produz frutos claramente perceptíveis. Tais como o temor e a incerteza da consciência abalada, pela qual é atacada a fé, quando a pessoa não sabe ou duvida se tem um Deus propício, fruto esse que é tanto mais amargo quanto mais fraca é a fé. E se tal fraqueza é avaliada condignamente, por ser espiritual, ela terá bem mais peso do que a fraqueza corporal, a qual também se torna levíssima quando comparada cuidadosamente com aquele.
    Além disso contra entre os males internos toda aquela tragédia que o Eclesiastes ( cf Ec 1.2,14) – descreve,quando se refere tantas vezes à vaidade e aflição do espírito. Quantos propósitos tomamos em vão! Quantos desejos nossos são frustrados! Quantas coisas vemos, quantas coisas ouvimos contra nossa vontade! E mesmo as coisas que correm segundo o nosso desejo correm também contra nosso desejo. A tal ponto nada é completo e perfeito. Depois, todos estes (males ) são tanto maiores quanto mais alto o posto ou a posição em que alguém se encontra. Tal pessoa deve necessariamente passar por bem mais e maiores perturbações, tumultos e tempestades do que as demais que sofrem na mesmo situação, como diz, com razão, Sl 104.25: no mar deste mundo existem animais pequenos e grandes e répteis sem número, quer dizer, uma infinidade de tentações; por causa disso também Jó 7.1 chama a vida da pessoa uma tentação.
    Estes males, no entanto, não deixam de ser males porque são menos percebidos, mas porque são aviltados pelo uso e pela assiduidade e porque, pela ação de Deus, são enfraquecidos os sentimentos e pensamentos relativos a eles.
    Por isso comovem raras vezes a nós, que não aprendemos ainda a despreza-los por meio da experiência. A tal ponto é verdade que dificilmente sentimos a milésima parte de nossos males. A tal ponto, por fim, é verdade que medimos, sentimos ou deixamos de sentir nossos males não pelo que são de fato, mas pelo que pensamos e sentimos a seu respeito.

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