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    O Caráter Bíblico da Pregação



    Isto quer dizer que a pregação é explicação da Escritura. Que se deve expor nesse discurso humano? Uma vez que a razão de ser da pregação é mostrar a justificação operada por Deus não pode ser preocupação do pregador desenvolver um sistema pessoal, o que ele pensa de sua vida e da do seu próximo, da sociedade, do mundo. Se ele vive da justificação, ele não pode se prender a ideologias humanas. Os homens não vivem do valor imanente das coisas. Se nós perguntamos porque somos justificados, somos sempre remetidos aos quatro critérios das Escrituras Sagradas que testemunham a Revelação, fundam a Igreja, transmitem a missão (o poder de testemunhar) e suscitam a vocação. Não há então nada a dizer além do que diz a Escritura. Sem dúvida que o pregador terá a experiência da carga que ele traz sobre si, com suas idéias pessoais. Trata-se contudo, de saber, afinal de contas, se ele se prestará a um compromisso; ou se, malgrado suas idéias próprias, ele aceita a exigência de explicar este Livro, e nada mais.
    Para não nos perdermos em considerações gerais, analisaremos, em cinco pontos, o comportamento e os caracteres próprios do pregador cristão:
    1) Em primeiro lugar, confiar simplesmente na Escritura. Se o pregador se limita ao texto e dá à sua exposição a forma de uma explicação, isto é suficiente. Se ele pensa que para a vida prática é preciso ainda acrescentar alguma coisa, que a Bíblia não diz tudo que é preciso para viver, então esta confiança se desfaz.
    2) Explicar significa respeitá-la no sentido de respicere, (ter consideração por uma coisa da qual se espera socorro). Todo discurso deve originar-se deste respicere. O pregador está ocupado por algo além de si mesmo. Ele não tem que pensar a não ser nisso. Poder-se-ia compará-lo a um homem que lê alguma coisa com dificuldade, e que se surpreende com as descobertas que faz. Ele move os lábios, soletra mais que lê, é todo olhos, é tocado por uma impressão profunda: "Isto não vem de homens".
    3) A atenção específica é indispensável. Quem deseja pregar deve estudar com muita atenção o seu texto. Ao invés de atenção poder-se-ia dizer melhor "zelo", isto é, esforço para descobrir o que está dito neste texto que está sob seus olhos. Para isto um trabalho exegético, científico é necessário; estudo preciso de caráter histórico e filosófico. Porque a Bíblia é também um documento histórico, ela nasceu em meio à vida dos homens.
    Do começo ao fim, a Bíblia diz sempre uma mesma coisa, uma coisa única, ela o faz porém, constantemente, de outra maneira. Variedade da Escritura tem também esta conseqüência, que cada texto em cada época fala ao homem da maneira que é necessária para ele. É por isso que não há somente o trabalho do filólogo, mas é preciso procurar também no texto da Palavra de Deus para a comunidade.
    Uma pregação não é boa se constata que o trabalho não foi feito com seriedade. Também o respeito, um respicere sempre renovado é indispensável. Trata-se aqui de lutar contra a preguiça intelectual do pastor muito ocupado e exteriormente ativo. É no púlpito, domingo, que aparece a negligência, porque no momento todo o zelo que se desenvolva é impotente para suplementar a indolência. Por causa disso, a comunidade deveria deixar ao pastor mais tempo para a preparação. Pois para pregá-lo convenientemente é preciso muito. Por outro lado, a Igreja deveria vigiar, no sentido de que só as pregações preparadas com seriedade sejam transmitidas de um púlpito.
    4) O dever de modéstia. Uma resposta é dada ao homem na Escritura, de contentar-se, ele não tem que se colocar adiante com suas disposições mais ou menos boas. Se o pregador presta atenção, ele recebe sempre uma resposta da Escritura, seu próprio pensamento é contrariado, ele é remetido a seus limites. O pastor está colocado diante dos profetas e dos apóstolos, ele deve então recuar com seus pontos de vista e sua espiritualidade.
    Por mais despertado que esteja nosso espírito, temos a tendência de retomar os caminhos batidos. É por isso que, mesmo depois do estudo mais sugestivo e malgrado o que se pode imaginar, não se sabe ainda o que se tem a dizer. Estamos totalmente preparados para a situação na qual a Palavra de Deus deverá ser dita. Na verdade, nesta situações somos já um homem suprido, e contudo, isto não está ainda cumprido. Pode-se falar por exemplo, da alta consciência, do poder da língua e do pensamento que se encontra na Bíblia e de outras coisas mais. Mas isso ainda não é o Evangelho, porque este não está nem em nossos pensamentos nem em nossos corações, mas nas Escrituras. Os hábitos mais favoritos, as melhores intenções, tudo deve ser renunciado para que se possa escutar. Não é preciso que por causa dela sejam repelidas as coisas que brotam da Bíblia. Sempre de novo eu devo deixar-me contradizer, devo tornar-me disponível, e deixar de lado aquilo que pode ser um obstáculo.
    Este conselho de modéstia me fará passar com prudência, por exemplo, sobre os sermões de Lutero. Essa qualidade não foi sempre a sua força. Ele creu, depois de sua grande descoberta, dever repetir a coisa "única" que o animava. Páginas inteiras na Bíblia, por exemplo, as concernentes à Lei e ao galardão – ele as negligenciou porque estava, de certa forma, fascinado pelo que lhe havia sido revelado, a justificação pela fé. É preciso deixar o texto corrigir o que se tem na cabeça, não dar o passo daquele que, antecipadamente, já sabe a verdade. Eis aí a modéstia!
    5) A mobilidade – O pregador deve se apoiar no movimento da Palavra de Deus. Não é suficiente dizer ou ter lido em algum lugar que a Bíblia é a Palavra de Deus para saber o que ela deseja dizer. Na realidade ela não o é no mesmo sentido em que se diz, por exemplo, que o Código Civil contém o pensamento do Estado. Para compreender o que se passa na realidade, seria melhor dizer que a Bíblia torna-se Palavra de Deus. E desde que ela se torna para nós, ela o é.
    O pregador é chamado a viver uma aventura com a Bíblia, há um intercâmbio contínuo entre ele e a Palavra de Deus. Quando falamos em mobilidade, queremos dizer, ser dócil a esse movimento da Palavra, deixar-se levar através das Escrituras.
    O cânon é para nós uma garantia, mas isto significa simplesmente que a igreja compreendeu esses escritos como o lugar onde ela deve entender a Palavra de Deus. Enfim, no que concerne à doutrina da inspiração, não é suficiente crer, mas é preciso perguntar: Estou eu atento? Será que Deus me vai falar nesta Escritura? Essa esfera deve ser ativa, dar-se à Escritura, procurar, a fim de que ela nos mostre.
    Os cinco pontos que acabamos de ver e que caracterizam a "biblicidade" da pregação não constituem uma simples abordagem teológica, à qual podemos nos acomodar ou não. Não há escolha. Isto não deve ser compreendido senão como uma disciplina à qual se submete. Não se pode subtrair sem renunciar simultaneamente sua função.
    E agora resta-nos voltar a atenção para três conseqüências que se tornam fatais se as exigências precedentes não são levadas a sério:
    a) o pregador não deve "jouer au calotin" (Pfaffe), ensoberbecer-se pela consciência de sua missão, por sua função, sua teologia, ou crer-se cheio do Espírito Santo para representar diante do mundo os interesses do Bom Deus. Contra esta miséria não há senão a seiva que deriva da "biblicidade", a verdadeira compreensão da Escritura. Onde reina soberanamente a Santa Escritura, a erva dos calotins não pode ser colocada? O pregador não pode fixar-se em uma segurança falaz e cultivar a auto satisfação.
    b) o pregador não deve ser um iluminado voando num mundo irreal, com boas intenções, sem dúvida, e grandes idéias em mente. Uma pregação fiel não é iluminista porque a Santa Escritura foi pronunciada em um bem real. Poderá algumas vezes sentir-se isolado e solitário, mas não se permitirá ir aos sonhos ou às exaltações.
    c) o pregador não deve ser enfadonho. Pasto e aborrecimento de longa data tornaram-se sinônimos. Os ouvintes crêem que sabem, depois de algum tempo, o que se diz do alto do púlpito. A falha não é apenas deles. Aí também a Escritura anunciada em sua autenticidade é o único remédio. Se a pregação é fiel a Bíblia, então ela não pode ser fastidiosa. A Escritura é, na realidade, tão interessante, e ela tem a nos dizer tantas coisas novas e apropriadas para nos abalar, que os ouvintes não podem em verdade, ser levados a dormir!
    Neste capítulo é preciso ainda responder a uma questão: Como tratar um texto do Antigo Testamento? O Velho Testamento não nos interessa senão através do seus "vis-á-vis", o Novo Testamento. Se a Igreja é apresentada como sucedendo a sinagoga, isso significa que o Velho Testamento é testemunha de Cristo antes de Cristo (mas não sem Cristo). O Velho Testamento e Novo Testamento relacionam-se entre si (a profecia tem cumprimento). É neste contexto que é preciso ver sempre o Velho Testamento.
    A exegese histórica não deve ser negligenciada mas sempre será necessário perguntar: Esta interpretação histórica explica o liame que une os dois testamentos? Mesmo numa pregação sobre Juizes 6.36, será possível limitar-se ao sentido literal, e contudo dirigir flechas para Jesus Cristo. O Velho Testamento é um livro inteiramente judeu, não é menos uma referência a Jesus Cristo.
    No que concerne à legitimidade da alegoria é também a relação entre o Velho Testamento e o Novo Testamento que nos guiará. Para não ceder à tentação de dar à passagem sentido que ela não tem, limitemo-nos ao que está dito nesse lugar, não nos esquecendo de que a Igreja adotou o Velho Testamento por causa de Jesus Cristo. Da mesma forma, deve-se evitar opor exegese histórica e exegese cristã. O Velho Testamento olha para frente, o Novo Testamento fala do futuro para trás e todos os dois olham para Cristo.

    K. Barth

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