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    IGNORÂNCIA - C. H. SPURGEON



    Eu ouvi falar sobre um homem que não distingui "A" maiúscula de outra qualquer e conheço muitos que, com certeza, não sabem o significado da letra "A", mas nem por isso são as pessoas mais ignorantes do mundo. Por exemplo, elas sabem distinguir a cabeça da vaca da cauda, e diz-se que o candidato de Londres não sabia distinguir uma coisa da outra. Eles sabem que nabos não crescem em árvores, mas podem confundir um rabanete gigante com a raiz de uma beterraba e não distinguir um coelho de uma lebre; há pessoas que são brilhantes para tocar piano e que dificilmente sabem mais do que isso. Se eles não sabem ler podem arar, ceifar, colher, semear e criar sete crianças com dez moedas por semana e ainda ganham o suficiente para viver; e há um tipo de pessoa que é muito ignorante para fazer isso. A ignorância para soletrar livros não é uma coisa boa, mas ignorar o trabalho difícil é pior ainda. A sabedoria nem sempre fala latim. O povo ri dos aventais e, sem dúvida, são peças de roupa tão feias que deveriam ser bem planejadas, mas alguns dos que as usam não são tão tolos como as pessoas pensam que são. Se nenhum ignorante comesse pão, mas apenas os que usam sapatos com tachas, o milho seria mais barato. A sabedoria em um homem pobre é como avaliar um diamante, apenas bons juízes descobrem seu valor. A sabedoria quase sempre se camufla com retalhos de roupas, e, por isso, as pessoas deixam de admirá-la. Mas eu digo, não dê importância à roupa, olhe o ser humano, as conchas não são nada, a pérola está no interior. Você não precisa ir para Pirbright a fim de encontrar ignorantes; há montes deles perto de catedral de São Paulo. Eu gostaria que todos fossem capazes de ler, escrever e calcular (sem dúvida, não acho que um homem pode saber demais); mas, o conhecimento dessas coisas não é educação. Há milhões de pessoas que lêem e escrevem e que são tão ignorantes quanto o bezerro do vizinho Norton, que não reconhecia a própria mãe. Isso é tão evidente como o nariz em sua face, e só você pensar um pouco. Saber como ler e escrever é como ter ferramentas, mas se não usar essas ferramentas, e os olhos e também os ouvidos, você não está em situação muito melhor. Todo mundo deve saber que o que encontra em si mesmo é mais importante e o torna mais útil. Se o gato caça ratos e descobre os ovos postos pela galinha sabe as coisas que mais servem para aquilo que foram feitos. Já saber como voar tem pouca utilidade para um cavalo; ele fará melhor se conseguir trotar. O homem que vive em uma fazenda deve aprender tudo a respeito de fazenda, um ferreiro deve estudar a pata do cavalo, uma jovem que trabalha em uma fazenda de gado leiteiro deve estar bem informada sobre como ordenhar e fazer com que espume e em como fazer manteiga, e a esposa de um trabalhador deve ser uma boa estudante das ciências de ferver e de assar, lavar e remendar. João Lavrador se aventura a dizer que esses homens e mulheres que não aprendem a respeito das dúvidas de seus negócios são pessoas muito ignorantes, mesmo que saibam dizer a palavra grega para crocodilo ou escrever um poema em um besouro negro. Com freqüência, este versinho é muito verdadeiro:
    O Joãozinho foi à escola- para aprender a ser tolo.

    Quando um homem cai no rio, saber nadar é mais útil que toda a matemática, no entanto são poucos os jovens que aprendem a nadar! As garotas aprendem a dançar e francês, quando aprender a costurar e inglês seria muito mais útil para elas. Nesses tempos difíceis, quando os homens têm de ganhar a vida, um bom negócio e hábitos comerciais serão mais úteis que toda a teoria clássica de Cambridge e Oxford; mas hoje quem advoga o treinamento prático em nossas escolas? Os professores teriam um colapso se fossem convidados a ensinar meninos pobres a cavar batatas com a enxada e a plantar couves-flores, no entanto a direção das escolas estaria fazendo algo bom se fizesse esse tipo de coisa. Se quiser que um cachorro seja um caçador, você o treina para isso – por que não fazer o mesmo com os homens? O lema deveria ser: "Cada homem para o seu negócio, e todos mestres em seus negócios". De qualquer maneira, façam com que o Joãozinho e o Toninho aprendam geografia, mas não esqueçam de ensiná-los como engraxar suas botas e pregar botão em suas calças; em relação à Jane e à Sally deixem que cantem e toquem a música que gostarem, mas não antes de saberem remendar uma meia e fazer uma camisa. Quando fizerem uma emenda ao Ato de Educação espero que acrescentem uma cláusula para ensinar às crianças o senso prático comum, os deveres de casa, bem como os três "R". Contudo, qual a utilidade de falar sobre isso, se as crianças devem aprender o senso comum, onde conseguiremos os professores? Pouquíssimas pessoas têm senso prático comum para distribuir, e as que têm provavelmente não o guardam para a escola. Muitas meninas não aprendem nada a não ser coisas inúteis que chamam de talentos. Temos o pobre Gent que tem seis meninas e cerca de R$ 240,00 por ano para manter a família, e não obstante, nenhuma delas pode fazer nada, porque a mãe teria um ataque com receio que a srta. Sophia Elfrida rache as mãos lavando a roupa branca da família, ou que Alexandria Theodora danifique sua aparência colhendo algumas groselhas para o pudim. Ouvir as insignificâncias ditas sobre moda e etiqueta é suficiente para fazer um gato rir, principalmente quando elas não estão nem um pouco bem de vida como as filhas regateiras, que moram na avenida, que ganham dinheiro e economizam para a hora que algum jovem fazendeiro as escolha. Confiem em mim, quem casar com uma dessas jovens irrequietas fará um negócio tão ruim quanto se casassem com uma boneca de cera. Como haveria abundância; que provação para a Sra. Gent ouvir-me dizer isso, mas eu direi, por tudo isso — ela e suas meninas são ignorantes, muito ignorantes, porque não sabem o que é mais útil para elas.
    Atualmente, qualquer peixe pequeno se diz tubarão, todo asno pensa que está pronto para ser um dos cavalos da rainha; toda vela se considera o sol. Mas quando um homem, com seu melhor paletó, colarinho engomado, óculos nos olhos, corrente de latão no colete, bengala na mão e o vazio na cabeça fantasia que as pessoas não vêem além de sua afetação e fanfarronice, ele deve ser ignorante, muito ignorante, pois não se conhece. Almofadinhas vestidos na última moda pensam que são alguém, mas ninguém mais pensa isso. Mestres da dança e alfaiates fazem rapidamente um janota, mas não podem fazer nada no íntimo de um homem, você pode colorir uma pedra de moinho, mas não pode transformá-la em queijo.
    Em toda nossa região, temos uma grande quantidade de poetas ou, pelo menos, um grupo de pessoas muito ignorantes que pensa ser poeta; e essas pessoas me incomodam muito porque eu escrevi um livro e, portanto, tenho obrigação de ouvir suas histórias confusas. Absurdos são absurdos, quer rimem, quer não, e são tão ruins quanto as moedinhas que não servem para nada, não importa se tinem ou não. Um homem disse-me: "Olhe, João, eu quero ler alguns de meus versos para você". "Não, obrigado', disse eu, "Eu não estou com humor para poesia hoje." Preste atenção, eu não me sentirei nem um pouco melhor amanhã. Que direito tem esse camarada de atirar seus escritos de má qualidade na minha porta? Já tenho bastante porcaria minha mesma. Não pretendo ficar com meus ouvidos cheios de cera de sapateiro ou versos remendados. Outro dia, durante a manhã, eu recebi uma dose dupla de dois dos grandes poetas da aldeia e devo confessar que foi muito melhor que a maior parte das rimas que encontrei em livros. Chubbins disse:
    É pecadooubar um alfinete.

    E Padley finalizou:
    Pecado ainda maior É roubar um maltrapilho.

    Agora, eis uma rima e um raciocínio para vocês, conforme disse o coveiro quando escreveu três linhas para a lápide de um homem pobre:
    Aqui repouso,morto por um fogueteem meu olho.

    Os homens de negócio que aplicam seu ganho em empresas esperando vê-lo de novo ou que emprestam dinheiro a juros ultrajantes e pensam fazer fortuna com ele devem ser ignorantes, muito ignorantes. Eles poderiam, da mesma forma, colocar uma chaleira no fogo para ferver a água para o chá ou semear feijões no rio e esperar uma ótima colheita.
    Quando os homens acreditam em advogados e em emprestadores de dinheiro tomam dinheiro emprestado para especular e acham que têm muita sorte, eles são vergonhosamente ignorantes. O próprio ganso não faria uma coisa dessas consigo mesmo, pois ele sabe quando alguém tenta depená-lo e não perderá suas penas para vangloriar-se da operação.
    O homem que gasta seu dinheiro com o garçom do bar e pensa que o cumprimento do dono: "Como vai você, meu bom companheiro", significa respeito, verá que é muito natural que seja seguido das seguintes palavras:
    Se você tiver dinheiro, sente-se; Se você não tiver nada, pode ir embora.

    A raposa aprecia o queijo; mas se ele não estivesse ali, ela não se importaria de forma alguma com ele. A isca não é posta na ratoeira para alimentar o rato, mas para caçá-lo. Não acendemos o fogo para o conforto dos arenques, mas para assá-los. Os homens não mantêm tavernas para o bem dos trabalhadores locais; se eles o fizessem perderiam de vista seu objetivo. Por que, então, as pessoas devem beber "para o bem da casa"? Se eu gastar dinheiro para o bem da casa, que seja da minha, e não a do estalajadeiro. Esse é um poço ruim no qual você deve pôr água; e a sede de cerveja é um péssimo amigo, porque leva tudo o que você tem e não deixa nada, apenas dor de cabeça. Quem chama de "amigo" os que o deixam sentar e beber durante horas, é ignorante, muito ignorante. Pois leões vermelhos, tigres, águias e abutres são criaturas predadoras, e apenas os tolos põem a si mesmos em suas poderosas mandíbulas e garras.
    Quem acredita que tanto os liberais como os conservadores baixarão os impostos provavelmente nasceu no dia seguinte ao último dia de março; e quem imagina que o conselho do condado e os distritos locais não terão corrupção um dia deve ter sido educado em uma instituição para idiotas. Quem acredita em promessas feitas em campanhas eleitorais tem orelhas grandes e pode comer cardos. O sr. Aceitável pediu votos a todos os trabalhadores e prometeu fazer todos os tipos de coisas louváveis por eles. Você acha que ele fará? Sim, depois de amanhã, no dia que não chega nunca. Os pobres homens que esperam que os "amigos dos trabalhadores" façam alguma coisa por eles devem ser ignorantes, muito ignorantes. Quando conseguirem seus assentos no Parlamento, sem dúvida, não se levantarão por seus princípios, exceto quando for de seu interesse.
    Emprestar guarda-chuvas e esperar que sejam devolvidos, fazer bem a alguém e esperar retorno quando precisar é o mesmo que sonhar; fazer a língua de certas mulheres parar, tentar agradar a todos, esperar ouvir mexericos bons a seu respeito ou esperar ouvir a verdade em uma história corriqueira são evidências de grande ignorância. Quem conhece mais o mundo confia menos nele. Quem confia totalmente nele não é sábio, pois pode, da mesma forma, confiar no casco de um cavalo ou nos dentes de um cão. A confiança nos outros arruína muitas pessoas. Quem deixa seu negócio nas mãos do gerente e dos empregados e acredita que tudo ficará bem deve ser ignorante, muito ignorante. O rato sabe quando o gato sai, e os empregados sabem quando o dono está longe. Nove em cada dez casos, logo que o olho do dono se afasta, a mão do empregado se solta. Dois bons empregados em uma fazenda são o "eu mesmo vou," e o "eu olho por isso". Quem deita na cama e acha que o negócio anda sozinho é ignorante, muito ignorante.
    Quem bebe e vive de forma descomedida e se pergunta porque seu rosto está tão manchado e seu bolso tão vazio saberia o porquê se tivesse dois grãos de sabedoria. Quem vai ao bar em busca de alegria sobe em uma árvore em que encontra lixo. Seu juízo cabe em uma casca de ovo ou não seria tão crédulo em buscar auxílio onde é tão fácil encontrá-lo quanto uma vaca em um ninho de gralhas. Contudo, os infelizes que não são bons para nada são tão comuns como ratos em um monte de feno. Eu apenas gostaria de despachá-los para a terra dos preguiçosos, em que recebem cinqüenta centavos por dia para dormir. Se alguém conseguisse fazer com que esses camaradas vissem o resultado óbvio do viver de forma nociva, talvez eles mudassem. Não obstante, sei que vêem isso e, mesmo assim, continuam os mesmos, como a mariposa que queima as asas na chama, mas se lança em direção à vela de novo. Com certeza, perder tempo com bebida e esperar prosperar, mantendo as mãos nos bolsos ou o nariz em copos de estanho prova que são ignorantes, muito ignorantes.
    Quando vejo uma jovem senhora com um jardim florido em casa e um vestido de modista no corpo, sacudindo a cabeça como quem tem a certeza de que todo mundo está encantado com ela concluo que deve ser ignorante, muito ignorante. Homens sensíveis não se casam com o guarda-roupas ou com o chapéu; eles querem uma mulher com sentimento, estas sempre se vestem com sensatez, não de modo exagerado.
    Na minha opinião, os que zombam da religião e se põem acima dela porque sabem demais para acreditar na Bíblia são indivíduos superficiais. Em geral, usam palavras pomposas e vociferam muito, mas se eles fantasiam que podem reverter a fé das pessoas que testaram e provaram o poder e a graça de Deus devem ser ignorantes, muito ignorantes. Quem vê o sol nascer e presta atenção ao pôr do sol e não vê as pegadas de Deus, em seu interior é mais cego do que uma toupeira e serve apenas para morar embaixo da terra. Deus parece falar comigo em cada prímula e margarida, parece sorrir para mim acima de cada estrela, sussurrar para mim em cada sopro da brisa matinal e me chamar alto em cada tempestade. É estranho que tantos cavalheiros educados não vejam Deus em lugar algum, enquanto João, o lavrador, sente-o em todo lugar. João não tem desejo de mudar os lugares, pois o sentimento da presença de Deus é seu conforto e alegria. Eles dizem que o homem é o deus do cão. Esses homens são piores que cachorros, pois não ouvem a voz de Deus, mas o cachorro obedece ao assobio de seu dono. Eles se denominam "filósofos", não é? O nome apropriado para eles é "tolos", pois o tolo disse em seu coração: "Não existe Deus." As ovelhas sabem quando a chuva está chegando, as andorinhas prevêem o inverno e, há quem diga, até mesmo os porcos conseguem ver o vento; até que ponto aquele que vive onde Deus está presente em todos os lugares e não o vê é pior que o animal irracional!? Assim, fica muito claro que um homem pode aprender muito e ainda ser ignorante, muito ignorante.

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