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    Desenvolvei a Salvação - THOMAS WATSON



    Precisamos desenvolver nossa salvação por causa da:


    Em primeiro lugar por causa da dificuldade desse trabalho

    Este é um trabalho que pode fazer-nos trabalhar até que o sol de nossas vidas se ponha. Ora, a dificuldade no trabalho do desenvolvimento da salvação aparecerá de quatro diferentes maneiras.
    Primeiro, a natureza do trabalho. Há uma metamorfose a ser operada. O coração precisa ser mudado, pois ele é a verdadeira sementeira do pecado. É o depósito onde todas as armas da injustiça estão armazenadas. Ele é um pequeno inferno. O coração está cheio de antagonismo contra Deus. E uma zanga contra a graça salvadora. Quanto trabalho temos pela frente, visto que o coração precisa ser mudado! Quanto precisamos implorar a Cristo, Aquele que transfor­mou água em vinho, que possa transformar a água, ou melhor o veneno, da natureza, no vinho da graça!
    Segundo, a vida atual deve ser alterada. Para que o fluir do pecado, que antes corria tão forte, possa ser mudado, isso não é fácil. Para que o pecador, que antes estava indo em direção ao inferno, não precisando nem de vento nem de correnteza que o carregasse, possa agora alterar seu curso e navegar para um novo porto, isso é realmente um grande trabalho! Foi por um milagre que o rio Jordão retrocedeu. Ver o homem natural se tornar espiritual, ver o pecador andar contrário a si mesmo em direção aos caminhos de Cristo e à santidade, é tão estranho quanto ver a terra girar ao contrário ou o boliche correr em direção oposta ao seu próprio arremesso.
    Desenvolver a salvação é difícil, considerando-se os enganos a respeito do trabalho. O coração está pronto para assumir qualquer ponto em falso nesse desenvolver da salvação. Ele tem engano próprio, como aqueles que pensam poder ludibriar a morte. Por isso Agostinho exclamou: "O coração é um grande abismo." O coração está pronto para ser enganado duplamente sobre esse desenvolvimen­to da salvação:
    1. Ele freqüentemente faz o homem confundir moralidade por graça. Moralidade é nada mais do que natureza refinada, é o velho Adão vestido com melhores roupas. Um homem moralizado não é nada mais do que um diabo manso! Pode ser uma correnteza límpida de civilidade fluindo e ainda assim existir muito verme do orgulho e ateísmo permanecendo no fundo. O refinamento da moral não é nada mais do que uma coroa de flores colocada sobre um defunto. Como é fácil iludir-se quanto ao assunto da salvação e, como fez Ixião, abraçar a nuvem ao invés de Juno! Civilidade não é graça, embora seja um bom caramanchão sob o qual se plantar a vinha da graça.
    2. O coração estará pronto para nos enganar no desenvolvimento da salvação e nos fazer tomar um simulacro da graça por graça autêntica. Plínio disse que há uma pedra de berilo que se assemelha ao verdadeiro diamante. Assim sendo, existe alguma coisa que parece graça mas que não é graça. Existem duas graças que ajudam muito o desenvolvimen­to da salvação e nós facilmente nos enganamos com elas.
    Primeiro, arrependimento. Verdadeiro arrependimento acontece quando choramos pelo pecado como pecado, quando choramos por ele porque é uma coisa que mancha. Ele apaga a imagem de Deus e mancha a pureza da alma. Como ele é um ato de crueldade, é um soco contra o peito que nos amamentou. Ora, como é fácil prevaricar nisso!
    A. Muitos acham que se arrependem quando não é a ofensa e sim a penalidade que os perturba; não a traição, e sim o instrumento punitivo dessa traição.
    B. Eles acham que se arrependem quando derramam apenas algu­mas lágrimas, no entanto, embora esse gelo comece a derreter-se, este congela-se novamente e eles continuam andando no pecado. Muitos choram por causa de seus maltrates com Deus, como Saul em sua maldade para com Davi. Então disse Saul: "Pequei; volta, meu filho Davi, porque não mandarei fazer-te mal; porque foi hoje preciosa a minha vida aos teus olhos. Eis que procedi loucamente, e errei grandissimamente." (I Sam. 26:21). E assim os homens podem levantar suas vozes e chorar por causa do pecado e ainda continuarem nele. Eles são como cobras que trocam sua pele, mas conservam sua picada. Existe tanta diferença entre a verdadeira e a falsa lágrima quanto entre o canal de água e o manancial.
    Segundo, outra graça que conduz à salvação é a fé, entretanto quão facilmente os homens são enganados com uma pérola falsificada! Há um engano a respeito da fé: quando os homens reivindicam as promessas da Palavra, porém não os seus preceitos. A promessa é salvação, o preceito é "desenvolvimento." Eles aceitarão o primeiro, contudo não o outro, como se o médico pudesse prescrever duas receitas ao seu paciente, uma prescrevendo pílulas e outra prescreven­do bebida alcoólica. Ele irá tomar a bebida porque lhe é agradável, mas não a pílula. Muitos quererão Cristo como Salvador, todavia O recusarão como Príncipe; recebem Seus benefícios, mas não subme­tem-se às Suas leis. Isto é separar aquilo que Deus juntou. Assim sendo, em virtude de tais enganos e decepções a respeito deste desenvolver da salvação, devemos ser o mais cautelosos e alertas quanto possível nesse trabalho.
    Terceiro, a dificuldade em desenvolver a salvação vem dos impedimentos e dos obstáculos. Estes obstáculos são (1) interiores, a saber, a carne. Esta é um inimigo astuto. A carne clama por tranqüilidade: "e cobiça contra o espírito". (Gal. 5:17). Temos a ordem para crucificar a carne, (Gal. 5:24), entretanto quantos golpes precisamos dar com a espada do Espírito até que a carne esteja perfeitamente crucificada!
    (2) Neste trabalho nos deparamos com obstáculos que são exteri­ores às tentações. Austin afirmou que toda a nossa vida é uma tentação. Caminhamos por entre armadilhas. Há uma armadilha nas festas, sim, nossa mesa é geralmente uma armadilha. Satanás ainda está tentando pescar nossas almas. Quão freqüentemente ele joga sobre nós uma série de tentações para destruir nossa fortaleza de graça? O apóstolo nos fala destes dardos inflamados. (Ef. 6:16). As tentações são chama­das de dardos pela sua velocidade, elas são disparadas em alta velo­cidade, e inflamadas por causa de seu terror. Elas são disparadas como rajadas de fogo em direção à alma, a qual se assusta e se assombra, e isto não retardaria o desenvolvimento da salvação e o dificultaria?
    (a) Das reprovações. "... é corrente a respeito desta seita que por toda parte é ela impugnada. " (Atos 28:22). A velha serpente está sempre cuspindo seu veneno contra a religião e aqueles que a profes­sam. Quero mencionar aquele versículo em I Cor. 10:1: "... nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem..." Todos os santos do passado foram para o céu debaixo de uma nuvem de palavras rudes e reprovações. O mundo os colocou em seu livro negro enquanto Deus os colocou em Seu livro com letras garrafais! A garganta do ímpio é um sepulcro aberto para enterrar o bom nome daqueles que foram os baluartes da religião e carregaram suas cores.
    (b) Às vezes eles foram difamados e injuriados. Paulo foi conside­rado um homem sedicioso. (II Tm. 2:9). Os papistas remistas difama­ram Calvino e o culparam por ensinar que Deus era o autor do pecado, e disseram que ele morreu blasfemando, embora Beza, que foi testemu­nha ocular e escreveu sua vida e morte refutasse tal injúria, e relatou que final abençoado ele teve. Martin Bucer, aquele homem abençoado que gritou em santo triunfo: "Eu sou de Cristo e o diabo nada tem a ver comigo" foi caluniado pelos papistas que afirmaram ter ele negado que Cristo fosse o Messias encarnado. Mas aquele que foi o orador em seu funeral testemunhou pelo seu caráter sob juramento. Os Jesuítas na Burgundia cometeram a mesma calúnia a respeito de Beza, aquele san­to homem. Eles disseram que ele, sentindo que a morte estava próxi­ma, renunciara à sua profissão do evangelho e se reconciliara totalmen­te com a igreja de Roma. Isso era tão falso que o próprio Beza, que viveu ainda após tal calúnia ser espalhada, a refutou com grande indignação.
    Freqüentemente os santos sofreram o açoite das zombarias. (Heb. 11:36). Cipriano foi chamado, sarcasticamente, de Copriano; Ataná­sio, de satanásio; Davi foi a canção dos bebedores de bebidas fortes, (Sal. 69:12). Eu não tenho dúvidas de que Noé foi vítima de amarga zombaria quando estava construindo a arca muitos anos antes do dilúvio. Eles riram dele e o censuraram como a um velho tolo, caduco, que na realidade foi o mais sábio comparado a todos os do seu tempo. Por conseguinte, quando virmos o dilúvio da ira de Deus vindo sobre o mundo e começarmos a construir a arca e a "desenvolver nossa salvação ", os homens darão vazão ao seu desdém e escárnio: "Oquê? Vocês serão mais santos do que os outros? Vão fazer além do necessário?" Tudo isso serve para retardar e dificultar o desenvolvi­mento da salvação.
    (c) Um terceiro obstáculo neste desenvolvimento é a violência declarada: "Mas, como então aquele que era gerado segundo a carne perseguia o que o era segundo o Espírito, assim é também agora. " (Gal. 4:29). Tão logo um homem se renda a Cristo e seriamente comece a desenvolver sua salvação, o mundo levanta seus bandos treinados e manda toda a milícia do inferno contra ele. A Igreja de Cristo é como a ovelha de Abraão presa numa touceira de espinhos.
    Dêem testemunho as dez perseguições nos dias de Nero, Domiciano, Trajano, etc. Um homem que seja realmente santo é o alvo favorito para as críticas. Se a música do mundo não prevalecer, então ele tem sua fornalha acesa. (II Tm. 3:12). Estejam certos de que Cristo e Sua cruz nunca se separam. Ela está conosco em nossa preparação para o céu assim como esteve com os judeus na sua reconstrução do muro: "...cada um com uma mão fazia a obra e na outra tinha as armas. " (Nee. 4:17). Portanto não somente devemos ser construtores, e sim também guerreiros. Com uma mão devemos trabalhar, e com a outra segurar uma arma, a saber, a espada do Espírito, e combater o bom combate da fé. Este é também outro obstáculo ao desenvolvimento. Tão logo nos pomos a caminho do céu: "...me esperam prisões e tribulações. " (Atos 20:23). O mundo faz soar um alarme e não haverá trégua até à morte.
    Quarto, aquilo que torna difícil o desenvolvimento da salvação é o trabalho não confiável. Olhem ".. .por vós mesmos para não per­derdes aquelas coisas as quais temos obtido. " (II João v. 8) Este traba­lho é derrubado quase tão rapidamente como é construído. Um artífice, quando está trabalhando, encontra seu trabalho na manhã do dia seguinte da mesma forma que o deixou na noite anterior, mas isto não acontece conosco. Quando estamos desenvolvendo nossa salvação pela oração, jejum, e meditação, e interrompemos este trabalho por al­gum tempo, ao voltarmos a ele não mais o encontraremos como deixa­mos. Uma grande parte do nosso trabalho terá sido derrubada nova­mente.
    Precisamos estar continuamente alertas. "Sê vigilante e confirma os restantes que estavam para morrer; porque não achei as tuas obras perfeitas diante de Deus. " (Apoc. 3:2). Tão logo um cristão seja tirado do fogo do santuário, ele estará pronto para esfriar e congelar nova­mente na segurança. Ele é como um relógio de pulso: quando lhe dão corda em direção ao céu, ele rapidamente desenrola-se para a terra e para o pecado novamente. Quando o ouro é purificado na fornalha, ele se mantém puro, porém isso não acontece com o coração. Deixe-o aquecer com uma ordenança, deixe-o purgar no fogo da aflição. Ele não se mantém puro mas rapidamente junta óleo e corrupção. Nós raramente permanecemos bem dispostos por muito tempo. Tudo isso mostra o quanto é difícil desenvolver a salvação. Não somente devemos trabalhar, mas também vigiar.

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