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    A Realidade da Ira de Deus



    O que, exatamente, devemos entender como a ira de Deus? É um atributo de Deus? E, se assim for, ela age fundamentada em quê? Como respostas a estas perguntas não há declaração mais definitiva do que a do apóstolo Paulo na sua introdução ao principal tema de sua epístola aos Romanos: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Rm 1.18).
    Resumidos nesta declaração estão os pontos salientes de nosso artigo. Esta ira é a ira de Deus. Revela-se do céu. Note o tempo presente “revela-se”. Os julgamentos de Deus na história testemunham a respeito de sua ira. Além disso, esta ira é dirigida contra os homens – especificamente, contra os homens ímpios e perversos; e, ainda mais especificamente, contra os homens que de- têm a verdade pela injustiça.
    Mais adiante no contexto, o apóstolo explica que é possível escapar da ira de Deus, mediante a fé em Cristo, o único que tem propiciado essa ira (Rm 3.21-26). Com esta conclusão, exponho Romanos 1:18 da seguinte maneira.


    1. A provocação da ira de Deus – “...contra toda impiedade e perversão dos homens...”

    2. A natureza da ira de Deus – “A ira de Deus se revela do céu”. A ira procede do ser ou da pessoa de Deus; é sua contínua e imutável reação ao mal.

    3. A ira de Deus manifestada – “A ira de Deus se revela” (continuamente).

    Apokaluptetai, “se revela”, é um verbo que está no presente contínuo. As manifestações do desagrado divino acontecem ao longo da História, e um estudo destas manifestações nos ajuda a compreender a realidade da ira de Deus.

    4. A propiciação da ira de Deus – “A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé” (Rm 3.25). Somente o sangue expiatório de Cristo propicia a ira de Deus, e a justiça de Cristo, atribuída a nós, assegura-nos proteção permanentemente contra essa ira.



    1. A provocação da ira de Deus


    “...contra toda impiedade e perversão dos homens...”



    A impiedade é, na verdade, a ação de ser “antiDeus” e refere-se à inimizade e à perversidade, as quais abrem caminho para a injustiça (ilegalidade). A piedade age poderosamente como incentivo para a justiça de coração e de vida. Sua ausência deixa um vácuo que é facilmente preenchido pela injustiça. Onde não há temor a Deus, os desejos sensuais logo conduzem os homens a entregarem-se livremente a toda forma de perversão. A impiedade manifesta-se geralmente na forma de idolatria. No mundo pagão esta idolatria é expressa no serviço a ídolos e na escravidão a demônios associados a esses ídolos. Na sociedade ocidental, a idolatria manifesta-se na forma de mundanismo (servir ao mundo, ao invés de servir a Deus), ou seja, no satisfazer “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1 Jo 2.16).
    Visto que a impiedade afeta o próprio ser e caráter de Deus, ela provoca sua ira. Paulo declara que a ira de Deus se revela continuamente contra toda impiedade e perversão dos homens “que detêm a verdade pela injustiça”. Isso implica que os homens conhecem a verdade. Eles são convencidos pela verdade mas a abafam, restringindo-a ou empurrando-a para trás. Isto é verdade em relação a todos aqueles que praticam a impiedade, mas é verdade especialmente em relação aos judeus a quem Paulo se refere em Romanos 2 e 3. Os judeus tinham orgulho do seu conhecimento da verdade (Rm 2.20) mas desprezaram-na de tal maneira que provocaram nosso Senhor a proferir palavras de feroz indignação: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando!” (Mt 23.13)


    Todo pecado tem sua origem na apostasia do homem para com Deus. O pecado, então, aumenta e se multiplica à medida que as restrições de Deus sobre os pecadores diminuem. Finalmente, todo pecado tem sua consumação no fogo da ira de Deus. Todos os atos de ira e indignação neste mundo são apenas um prelúdio do estado final de ira que será revelado no “dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus” (Rm 2.5).
    O que ocorre não é que a ira cai sobre o pecado abstrato. A maioria das referências na Bíblia mostram explicitamente que a ira de Deus cai sobre os pecadores. “Aborreces a todos os que praticam a iniqüidade” (Sl 5.5). Há aproximadamente 26 passagens bíblicas declarando que Deus odeia pecados como divórcio, roubo, idolatria, etc. Destas, pelo menos 12 referem-se ao fato de que Deus odeia os próprios pecadores. Devemos observar também que toda expressão de ira na história deste mundo tem uma realidade escatológica (move-se em direção ao julga- mento final). Tudo está se movendo para aquele grande dia sobre o qual a Bíblia fala constantemente (Mt 25.31; Rm 2.5, 5.9; Ef 5.6; Hb 9.27; Ap 20.11). Naquele dia, tudo será revelado, e o lago de fogo se tornará um monumento permanente à justiça de Deus.
    Uma tremenda expressão de ódio para com Deus – ódio que tem como resultado a ira de Deus – é revelado em Apocalipse 20.8,9. Todos os exércitos e poderes do Anticristo se organizam contra o acampamento do povo de Deus. Os poderes da impiedade unidos avançam para atacar a noiva de Cristo. Ao examinarmos a batalha, vemos que, enquanto gloriosa santidade caracteriza a Divindade, ódio e feiúra são as marcas do inimigo. A ira de Deus se manifesta contra a impiedade – aquilo que guerreia contra Ele.



    2. A natureza da ira de Deus


    “A ira de Deus se revela do céu.”



    O castigo humano difere do castigo divino por sua natureza variável e inexata. Ao lidarmos com crime e castigo, pensamos geralmente em termos de reforma dos culpados e de proteção dos inocentes. A idéia de retribuição não é popular. No julgamento final, a ira divina será expressa somente em termos de retribuição. O inferno não será uma penitenciária, isto é, um lugar para correção. Dureza incorrigível caracterizará os ímpios. O castigo naquele dia será retribuição justa.
    Os magistrados são autorizados por Deus a punir (Rm 13.1-4), mas, em última instância, a retribuição, de acordo com a Bíblia, é função somente da Divindade. “A mim pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor” (Rm 12.19; Hb 10.30). O papel da consciência é importante. Não há arrependimento no inferno (Ap 16.11); e a ira de Deus, na forma de castigo sem fim, será apoiada pela consciência humana que prestará testemunho e a aprovará na sentença condenadora.
    A realidade da ira de Deus levanta a questão de impassibilidade: encontramos em nossas declarações de fé a afirmação de que “Deus não tem partes ou paixões corporais”. Isto estabelece uma verdade importante designada a evitar qualquer idéia de que Deus seja instável ou sujeito às disposições ou distúrbios que nós mortais conhecemos. No entanto, seria desastroso concluir, por isso, que Deus é uma máquina sem sentimentos. Ele é eternamente santo e é perfeito no seu amor triúno. Vemos seus sentimentos expressos em Cristo, mas não é possível sabermos, de maneira prática, como Deus sente. Se a declaração “Deus é amor” tem algum significado, então, concluímos que Deus sente emoções à sua própria maneira infinita e imutável. Em nossa própria experiência, sentimos o amor de Deus de forma tangível, à medida que esse amor é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado (Rm 5.5). A língua bíblica principal é o hebraico. A palavra aphdenota raiva, estremecimento, (210 vezes); e chemah significa calor, ira, fúria (115 vezes). Vistas nos seus contextos, estas palavras demonstram claramente a mensagem de que Deus tem sentimentos fortíssimos em relação à maldade. O assunto obviamente precisa de exposição separada, na qual o maior cuidado é necessário para resguardar nosso ponto de vista da imutabilidade de Deus, e o nosso entendimento dEle como um Deus (sempre santo em Si mesmo) que é amor e ira.
    Sobre o assunto de ira e amor, Shedd comenta: “Estas duas emoções são reais e essenciais em Deus: uma é despertada pela justiça e a outra pelo pecado. A existência de uma necessita da existência da outra; as- sim, se não houver amor pela justiça, não haverá ódio pelo pecado; e, reciprocamente, se não houver ódio pelo pecado, não haverá justiça. A coexistência necessária destes senti- mentos é continuamente ensinada na Bíblia: ‘Vós que amais o Senhor, detestai o mal’ (Sl 97.10)”.
    A perfeita compatibilidade entre a ira e o amor é vista na prova substitutiva de Cristo. Somente Ele poderia cumprir os requisitos da justiça. As ofertas queimadas de Levítico 1.1-9 eram completamente consumidas pelo fogo. Produziam um “aroma agradável ao Senhor”. O “agradável” é uma referência à total satisfação de justiça e não significa, nem por um momento, que Deus teve prazer nos sofrimentos de Cristo. Ele repugnava isto (lembremos a prova de Abraão, ao ser chamado para sacrificar Isaque) com perfeita repugnância, mas teve prazer na vindicação da justiça e no cumprimento da justiça representada na vitória de seu Filho. “A dor do Cordeiro em corpo e alma era tão imensa, que somente os poderes de uma pessoa divina poderiam suportá-la.”2 “Como sua alma fervia debaixo do fogo da ira, e seu sangue vazava através de todos os poros, por causa do extremo calor da chama.”

    Por causa destes interesses essenciais pela justiça, a ira de Deus veio sobre o Cordeiro, e podemos apenas concluir que essa ira é uma terrível realidade.


    3. A ira de Deus manifestada


    “A ira de Deus se revela (continuamente)...”



    Enquanto escrevo sobre essa ira, a mídia está trabalhando para expor ao mundo atrocidades que ocorrem em várias partes do mundo. A opinião mundial tem sido despertada rapidamente, exigindo que tome-se uma posição contra o grande número de mortes. A Bíblia fala clara- mente sobre acontecimentos desse tipo e sobre calamidades como guerras, fomes, enchentes, furacões e vulcões. A Bíblia avisa claramente sobre os fatos do julgamento de Deus na História.
    A queda de Adão e Eva. A primeira manifestação da ira de Deus é aquilo que veio como inexorável cumprimento de suas palavras: “No dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17). Os primeiros pecadores receberam sobre si mesmos uma maldição; a mulher foi amaldiçoada na principal órbita de sua vida e, de maneira semelhante, o homem. A terra também foi amaldiçoada. Todos os descendentes de Adão e Eva, por causa da Queda, são nascidos “na iniqüidade” (Sl 51.5). Toda pessoa que nasce neste mundo é culpada do pecado de Adão, ou seja, falta-lhe aquela justiça na qual Adão foi criado, e a pessoa é corrupta por natureza (Rm 5.12-21). Isto significa que toda pessoa nasce neste mundo como pecador e, conseqüentemente, a culpa clama por ira, devido aos pecados que ela comete cada vez mais. A demora na aplicação do castigo, expresso em Gênesis 2.17, é vista de várias maneiras. Adão não morreu fisicamente de imediato. O castigo de Caim pelo assassinato de Abel foi adiado, apesar de ser evidente que ele era um homem perverso. “A civilização caimita, descrita em Gênesis 4.16-24, foi ricamente abençoada com os benefícios da graça comum e se excedeu nos avanços tecnológicos e culturais. Ao mesmo tempo, essa civilização era protótipo de humanismo e impiedade.”
    O dilúvio nos dias de Noé. A decadência da humanidade, como conseqüência da Queda tem seu próprio comentário na observação feita por Jeová, ao reclamar que a inclinação do pensamento do coração do homem era somente maldade em todo o tempo! O pecado sempre traz consigo a reação da ira. O Senhor declarou: “Farei desaparecer da face da terra o homem que criei” (Gn 6.7). Os males da indiferença e do pecado caracterizaram a geração de Noé. A busca de atividades legais – comer, beber, construir, casar – se for seguida sem motivos teocêntricos provoca a ira de Deus. O aumento da criminalidade também foi um precursor do dilúvio. A terra estava cor- rompida à vista de Deus e cheia de violência; então, Deus disse a Noé: “Resolvi dar cabo de toda carne” (Gn 6.11-13). Referindo-se ao pecado de mundocentrismo nos dias de Noé, nosso Senhor declarou claramente que um estado semelhante de mundanismo precederá sua segunda vinda (Lc 17.26).
    Sodoma e Gomorra. De acordo com Calvino, o caso de Sodoma foi trazido à atenção de Abraão, a fim de ensiná-lo que os sodomitas mereciam, com justiça, a sua destruição. “Ao dizer que ‘o clamor tem se multiplicado’, Deus indica quão doloroso são os pecados dos ímpios porque, apesar de prometerem impunidade para si mesmos, escondendo suas maldades, os seus pecados soarão nos ouvidos de Deus”.
    O horroroso mal que veio a ser chamado de “sodomia” foi revelado inteiramente na noite anterior ao dia em que Ló foi removido da cidade, quando “os homens daquela cidade cercaram a casa... assim os moços como os velhos” e exigiram abusar dos dois anjos (Gn 19.4). Romanos 1 mostra que este pecado em particular é um sinal de perversão, um sinal de que Deus tem entregado os homens à destruição. Paulo diz que é impossível para um homossexual herdar o reino de Deus, mas algumas pessoas em Corinto se arrependeram deste pecado e encontraram a salvação (1 Co 6.9-11).
    O caso de Sodoma nos ensina que os pecados que destroem a instituição da família e que tornam intolerável a vida de crianças exigem a ira de Deus. O alarmante abuso sexual de crianças, em nossos dias, certamente provoca a ira de Deus. O pecado dos amorreus se tornou insuportável, quando chegou ao seu auge, na época quando essa nação foi destruída por Israel. A invasão foi um ato de guerra mas também de justiça (Gn 15.16; 1 Rs 21.26; 2 Rs 21.11).
    A maneira pela qual as cidades da planície foram destruídas não é insignificante. Seus crimes exigiam um ato de indignação que foi manifestado por fogo do céu, não um fogo de aniquilação, e sim um fogo de tormento sem fim; este fato é apoiado por Judas 7: “Sodoma, e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregado à prostituição como aqueles, seguindo após outra carne, são postas para exemplo do fogo eterno, sofrendo punição”.
    A ira caindo sobre os indivíduos. A ira de Deus é contínua na sua manifestação e universal na sua aplicação. Deus é um juiz justo, que manifesta sua ira todo o dia. Esta ira pode ser percebida na vida de pessoas como Acabe e Jezabel, no Antigo Testamento; e de Ananias e Safira, no Novo Testamento; e, mais tarde, na vida do Rei Herodes, que foi morto quando recebeu adoração que deveria ser prestada somente a Deus; e, na era moderna, na morte de ditadores como Hitler e os Ceaucescus.
    Nações e impérios. As nações e os impérios mundiais também são pesados na balança divina. Grandes trechos das mensagens proféticas são dedicados a este tema (Is 13-15; Jr 46-50; Ez 25-32 e Am 1-2). A obrigação de Naum era mostrar que a hora da ira de Deus havia chegado para Nínive, porque ela “vendia os povos com a sua prostituição e as gentes, com as suas feitiçarias” (Na 3.4). Por essas razões, “a sua cólera se derrama como fogo” (Na 1.6). Daniel 2 descreve o julgamento de Deus sobre quatro impérios orgulhosos que se sucederam, e todos foram totalmente destruídos.
    As setes taças da cólera de Deus. As taças de ouro de Apocalipse 16 são taças de ira. Alguns dos horrores dos julgamentos descritos de maneira simbólica no Apocalipse já estão, até certo ponto, presentes conosco. Seca, fome e poluição são terríveis realidades. Sempre pergunta-se porque Deus permite os terríveis desastres de guerras civis (no Sudão, durante 25 anos; em Moçambique, durante 16 anos; o conflito recente entre o Iraque e o Irã, etc.); fomes (como na Etiópia, no Sudão e na Somália); holocaustos (na Alemanha Nazista, na Rússia e, mais recentemente, no Camboja). Isaías 24.5-6a nos diz: “Na verdade, a terra está contaminada por causa dos seus mora- dores, porquanto transgridem as leis, violam estatutos, e quebram a aliança eterna. Por isso, a maldição consome a terra, e os que habitam nela se tornam culpados”.
    A ira de Deus revelada contra seu povo eleito. O privilégio traz consigo a responsabilidade. A aliança de Deus resumida em Deuteronômio coloca bastante ênfase na importância da fidelidade. A fidelidade seria recompensada com abundante prosperidade. Para o povo de Deus, a regra seria “emprestarás a muitas gentes, porém tu não tomarás emprestado” (Dt 28.12). Por outro lado, a desobediência, especialmente se fosse no caso de servir a ídolos imprestáveis, provocaria o ciúme do Senhor e acenderia o fogo da sua ira (Dt 32.21-24).
    Talvez a alegoria da infiel Jerusalém, registrada em Ezequiel 16, forneça a mais marcante lição de ira. Esta foi provocada pela promiscuidade e prostituição de Israel. Tendo sido removida do campo onde havia sido lançada na sua infância, e onde revolvia-se no sangue sem ter sido cortado o seu cordão umbilical, Jerusalém foi embelecida pelo seu Salvador e amante. Mas ela tinha dormido com seus vizinhos lascivos de todos os lados. Por isso, Ele diz: “Te farei vítima de furor e de ciúme” (Ez 16.38).
    O paralelo no Novo Testamento encontra-se em Hebreus 6 e 10. A justiça de Deus é proporcional à responsabilidade humana. Aqueles que fazem profissão de fé, tornam-se membros da igreja, recebem a luz, o ensino e os benefícios do evangelho e depois rejeitam esses privilégios serão devidamente punidos: “De quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça? Ora nós conhecemos aquele que disse: A mim pertence a vingança; eu retribuirei’. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.29-31).


    4. A propiciação da ira de Deus


    “A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé” (Rm 3.25).



    Nada é tão inescrutável ou tão maravilhosamente eficaz como o sacrifício vicário de Cristo, realizado de uma vez por todas, para propiciar a ira de Deus. Tão terrível foi essa ira que até mesmo Cristo, que conhecia todas as coisas, quando estava para tomar o cálice da ira, disse: “A minha alma está profundamente triste até à morte” (Mc 14.34).
    Na sua exposição de Isaías 53. 10: “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar”, Manton disse: “Então, aprenda: (a) a total impiedade do pecado, custou a Cristo uma vida de sofrimento, – uma dolorosa, vergonhosa, amaldiçoada morte e uma incrível com- preensão da ira de Deus, a fim de reconciliar pecadores; (b) O temor da ira de Deus fez com que Cristo morresse; (c) a extensão das nossas obrigações para com Cristo fez com que Ele condescendesse em suportar a ira de Deus; (d) devemos estar prontos a sofrer qualquer coisa por Cristo. Visto que Ele suportou a raiva e a ira de Deus por nossa causa, não suportaremos a raiva e a ira dos homens por causa de Cristo?”
    Propiciar (do latim propitiare) significa apaziguar, tornar favorável ou conciliar. Envolve o elemento pessoal. Uma pessoa ofendida é conciliada. Deus é propiciado no sentido em que sua ira é removida.
    A dádiva de Cristo como nossa propiciação é a mais completa expressão do amor de Deus. “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou e enviou o seu filho como propiciação pelos nossos pecados“ (1Jo 4.10). Aqui está o amor eficaz, um amor determinado a salvar, um amor que foi tão longe, a ponto de transferir a ira dos que a mereciam para Aquele que nos amou de tal maneira que somente Ele estava preparado a suportá-la. Com base na mesma propiciação, toda a graça comum e benevolente é manifestada; a ira, contida e o julgamento, adiado. “Todos os favores que até os ímpios recebem neste mundo”, diz John Murray, “estão relacionados de alguma forma à expiação, e pode-se dizer que têm sua origem nela”.


    Conclusão


    A realidade da ira de Deus como um atributo, uma parte essencial e intrínseca do seu Ser, deve agir como defesa contra o ensino falso e idéias sem fundamento no sentido de que não há inferno. A ira de Deus vista nos atos históricos de julgamento deve servir também para nos fortalecer contra as influências do liberalismo ético. A verdade de que a ira de Deus permanece sobre os homens deve induzir-nos a compartilhar o evangelho com eles. É notável que uma recessão no fervor missionário pode ser atribuída à mudança de atitude nos pregadores em afastarem-se da ênfase sobre esse tema que caracterizava nossos antepassados evangélicos. A propiciação realizada pela cruz de Cristo é, em si mesma, um testemunho sobre a realidade da ira divina. Essa ira, e a propiciação que a silencia, deve impelir-nos, com todos os recursos disponíveis, à evangelização do mundo.
    H. Hulse
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