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    Procure o Ensino Espiritual - C. H. SPURGEON



    Não lestes?... Não lestes? Mas, se vós
    soubésseis o que significa:...Mateus 12.3-7


    Entendo que isso está no meu texto, pois nosso Senhor diz: "Não lestes?" e de novo: "Não lestes?" e ainda, em seguida: "Mas, se vós soubésseis o que significa:..." — e o significado é algo muito espiritual. Ele citou um texto do profeta Oséias: "Misericórdia quero, e não holocaustos". Os escribas e os fariseus estavam totalmente a favor da letra, do sacrifício, da matança do novilho, e assim por diante. Deixaram de perceber o significado espiritual do texto: "Misericórdia quero, e não holocaustos" — a saber, que Deus prefere que tenhamos maior preocupação com o próximo do que com a observância de qualquer cerimonial de sua Lei, que poderia provocar fome ou sede, e por meio disso a morte de qualquer criatura dEle. Eles deveriam ter ido além do que é exterior para o âmbito espiritual, e toda a leitura que fazemos deve seguir esta forma.
    Note que assim deve acontecer quando lemos os trechos históricos. "Não lestes o que fez Davi quando ele e seus companheiros tiveram fome? Como entrou na casa de Deus, e comeram os pães da proposição, os quais não lhe era lícito comer, nem a ele nem aos que com ele estavam, mas exclusivamente aos sacerdotes?" Trata-se de uma narrativa histórica, e deveriam tê-la lido de tal maneira que recebessem dela a instrução espiritual.
    Já ouvi pessoas muito insensatas dizerem: "Eu não acho interessante ler as partes históricas das Escrituras". Amigos amados, vocês não sabem o que dizem quando falam assim. Digo-lhes pela minha própria experiência que, às vezes, achei maiores profundidades de espiritualidade nos relatos históricos do que nos Salmos. Você perguntará: "Como pode ser assim?" Afirmo que quando você chegar ao sentido interior e espiritual de uma história, muitas vezes ficará atônito com a clareza — com o impacto realístico — do ensino que é inculcado em sua alma.
    Alguns dos mistérios mais maravilhosos da revelação são melhor compreendidos quando são colocados diante dos nossos olhos, através dos relatos históricos, do que quando são declarados verbalmente. Quando temos a declaração do significado de uma ilustração, a ilustração expande e vivifica a declaração. Quando, por exemplo, o próprio Senhor queria nos explicar sobre a natureza da fé, Ele nos deu a história da serpente de bronze; e quem já leu a história da serpente de bronze considera que, mediante o quadro dos moribundos, mordidos por serpentes, que passam a olhar para a serpente de bronze e recebem a cura, obteve um conceito melhor sobre a fé do que de alguma descrição que até mesmo Paulo nos tenha dado, por mais maravilhosamente que ele a defina e descreva. Nunca deprecie os trechos históricos da Palavra de Deus; e, quando não conseguir obter benefício deles, diga: "É culpa da minha mente tola e coração lerdo. Oh, Senhor! esclareça o meu cérebro e purifique a minha alma". Quando Ele atender esta oração, você se sentirá convicto de que toda porção da Palavra de Deus é dada por inspiração, e que forçosamente é de grande proveito para você. Exclame: "Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei" (Sl 119.18).
    A mesma verdade diz respeito a todos os preceitos cerimoniais, porque o Salvador diz, em seguida: "Ou não lestes na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado e ficam sem culpa?" Não há um preceito na antiga Lei que não tenha um sentido ou um significado interior; por isso, não deixe de lado o livro de Levítico, nem diga: "Não posso ler os livros de Êxodo e de Números. Tratam das tribos com suas bandeiras, com suas peregrinações no deserto, com suas paradas durante a marcha, com o tabernáculo e seus utensílios, ou das romãs e bacias, e das tábuas com seus soquetes, das pedras preciosas, e do linho azul, vermelho e branco". Procure, porém, o significado intrínseco. Faça uma busca diligente; porque assim como nas jóias da coroa real a mais preciosa é a de mais difícil acesso, estando guardada a sete chaves, assim também acontece com as Sagradas Escrituras.
    Você já foi à biblioteca do Museu Britânico? Ali, há muitos volumes de consulta que o leitor tem licença de tirar da prateleira quando quiser. Há outros livros de consulta para os quais o leitor precisa preencher um formulário, e não terá acesso a eles sem o formulário; e, ainda, há outros livros seletos que ninguém verá sem receber autorização superior, e, então, há portas a serem destrancadas, armários a serem abertos, e há um vigilante ao lado de quem examinar o volume. Dificilmente temos licença de fixar o olhar num manuscrito, pela preocupação de se apagar uma única letra. É um tesouro tão precioso do qual não há outro exemplar, no mundo inteiro, e não temos fácil acesso a ele. Da mesma maneira, há doutrinas preciosas, realidades da Palavra de Deus que estão trancadas em caixas de vidro, tais como Levítico ou Cantares, e não podemos chegar a elas sem muitas portas serem destrancadas; e o próprio Espírito Santo deve estar ao nosso lado; de outra forma, nunca chegaremos até o tesouro de valor inestimável. As verdades mais sublimes são tão cuidadosamente escondidas como os ornamentos preciosos dos príncipes; por isso, faça uma busca ao ler. Não se dê por satisfeito com um preceito cerimonial até chegar ao seu significado espiritual, pois é esta a sua interpretação certa. Você ainda não leu, a não ser que entenda o espírito da questão.
    Assim também acontece com as declarações doutrinárias da Palavra de Deus. Tenho notado, com tristeza, algumas pessoas que são muito ortodoxas, e que podem recitar seu credo de modo muito loquaz, mas o uso principal que fazem da sua ortodoxia é ficar sentado observando o pregador, com a intenção de preparar acusações contra ele. Ele é julgado por ter falado uma única frase que tinha uma distância exígua (metade da largura de um fio de cabelo) abaixo do padrão! "Aquele homem não tem a sã doutrina. Disse algumas coisas boas, mas tenho certeza de que ele está podre até ao âmago! Empregou uma expressão que não foi de 1.200 gramas por quilo." Mil gramas por quilo não bastam para os caros irmãos aos quais me refiro, pois exigem algo a mais do que o siclo oficial do santuário. O conhecimento deles é usado como microscópio para aumentar diferenças mínimas. Não hesito em dizer que já encontrei pessoas que

    conseguem dividir um fio de cabelo
    entre o lado oeste e o noroeste,

    nas questões da teologia; nada sabem, porém, a respeito das coisas de Deus quanto ao seu significado real. Nunca beberam delas até saciar a profundeza de sua alma, mas apenas as chuparam até encher a boca, a fim de cuspi-las em cima do seu próximo. Falar sobre a doutrina da eleição é uma coisa, mas, saber que Deus nos predestinou, e produzir o respectivo fruto nas boas obras para as quais fomos destinados, isso é coisa bem diferente. Falar do amor de Cristo, falar do céu que foi preparado para o seu povo, e de outras tantas coisas — tudo isso é muito bom; mas é possível falar sobre tudo isso, sem ter experiência pessoal. Nunca, portanto, se dê por satisfeito somente com uma crença sólida, mas deseje tê-la gravada nas tábuas do seu coração. As doutrinas da graça são boas, mas a graça das doutrinas é melhor ainda. Tome o cuidado de possuir essa graça, e nunca se dê por satisfeito com seu nível de instrução, até que entenda a doutrina e tenha sentido o seu poder espiritual.
    Assim, somos levados a entender que, para chegarmos até esse ponto, precisaremos sentir Jesus presente conosco sempre que lemos a Palavra. Note aquele quinto versículo, para o qual quero agora chamar a sua atenção: "Ou não lestes na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado e ficam sem culpa? Pois eu vos digo: Aqui está quem é maior que o templo". Pensavam muito a respeito da letra da Palavra, mas não sabiam que estava presente Aquele que era Senhor do sábado — sim, Senhor dos homens, Senhor do sábado, e Senhor de tudo. Depois de você ter obtido a posse de um credo, de uma Ordenança, ou de qualquer coisa que é exterior na letra, ore para que o Senhor o leve a sentir que há algo maior do que a letra impressa, e algo melhor do que a mera casca do credo. Existe uma Pessoa que é maior do que todas aquelas coisas, e é a Ele que devemos clamar, pedindo que Ele fique conosco para sempre. Oh! Cristo vivo, faz com que esta seja uma palavra viva para mim! A tua palavra é vida, mas não sem o Espírito Santo. Posso conhecer esse teu Livro do começo ao fim e repeti-lo desde o Gênesis até ao Apocalipse, e, mesmo assim, ele pode ser para mim um livro morto, e eu posso ser uma alma morta. Sê presente aqui, Senhor; então, levantarei meus olhos do Livro e olharei para o Senhor; do preceito para Aquele que o cumpriu; da Lei para Aquele que a honrou; das ameaças para Quem suportou o castigo em meu lugar, e da promessa para Quem a cumpriu com "Sim e Amém". Então, leremos o Livro de modo bem diferente. Ele está aqui comigo, nesse meu aposento — não posso agir levianamente. Ele está bem perto, inclinado para colocar seu dedo ao longo das linhas, e posso ver a sua mão traspassada — lerei sentindo a sua presença. Lerei sabendo que Ele é a substância da leitura — que Ele é a comprovação desse Livro, além de ser o escritor dele; Ele é a totalidade do conteúdo das Escrituras, além de ser o autor delas. É dessa maneira que os estudantes genuínos se tornam mais sábios! Você consegue alcançar o âmago das Escrituras, quando, enquanto está lendo, conserva consigo a presença de Jesus.
    Você já ouviu um sermão do tipo que, se Jesus tivesse se aproximado do púlpito enquanto o pregador falava, Ele teria dito: "Desça daí, saia do púlpito; o que você está fazendo aqui? Mandei você pregar a Meu respeito, e você prega a respeito de uma dúzia de outras coisas. Vá para casa e aprenda de Mim, e depois venha falar". O sermão que não conduz a Cristo, ou do qual Jesus Cristo não é a essência, é o sermão que faz rir os demônios no inferno, mas que faria os anjos de Deus chorarem, se pudessem ter tais emoções.
    Você se lembra da história do gaulês que ouviu um jovem pregar um sermão magnífico, grandioso, pretensioso e bombástico; e, depois de chegar ao fim, perguntou ao gaulês o que achava a respeito. O homem respondeu que não dava nenhum valor a ele. "E por que não?" "Porque não havia nele nada de Jesus Cristo." "Ora", disse o pregador, "mas meu texto não apontava naquela direção". "Não importa", disse o gaulês, "seu sermão deve seguir naquela direção". "Não vejo o assunto assim", disse o jovem. "Então", disse o outro, "você ainda não vê como deve pregar. O modo certo de pregar é o seguinte: De cada aldeia minúscula na Inglaterra — não importa em que região — sempre sai, com toda a certeza, uma estrada para Londres. Embora talvez não haja estrada para outros lugares, certamente haverá uma estrada para Londres. Da mesma forma, de cada texto na Bíblia há uma estrada que leva a Jesus Cristo, e o modo certo de pregar é, simplesmente, dizendo: 'Como posso, tomando esse texto como ponto de partida, chegar até Jesus Cristo?' e, então, ir pregando pela estrada afora". "Mas", disse o jovem, "suponhamos que descubro um texto que não tem uma estrada que leva a Jesus Cristo?" "Faz quarenta anos que estou pregando", disse o velho, "e nunca achei um texto bíblico assim; mas se chegar a achar um, passarei por sebes e cercas, e chegarei até Ele, porque nunca termino sem introduzir meu Mestre no sermão".
    Talvez você pense que eu também passei um pouco por sebes e cercas, mas estou convicto de que não, porque é aqui que entra o versículo 6, que, de modo muito doce, introduz o nosso Senhor e O coloca bem à frente do leitor bíblico, de modo que não possa pensar em ler sem sentir que está presente Aquele que é Senhor e Mestre de tudo quanto está lendo, e que tornará essas coisas preciosas para o leitor, se ele O reconhecer nelas. Se você não descobrir Jesus nas Escrituras, elas terão pouca utilidade para você, pois o nosso Senhor disse: "Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida" (Jo 5.39-40); e, por isso, suas buscas não dão em nada; você não acha a vida, e permanece morto nos seus pecados. Que isto não aconteça conosco!



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